O papel está sobre a mesa. A lapiseira ao seu lado foi postada na exata diagonal da folha em branco. Os dias se passam, o vento invade as grades da janela e o papel não se move um centímetro. Está a salvo de qualquer respingo. Por alguma razão, que só o destino (não que eu acredite nele), e mais ninguém sabe, algum dia, o papel é colocado de modo que facilite a mobilidade das mãos. A lapiseira fica em pé. Vêm os primeiros traços. Firma-se nos dedos.
A palheta de cores primárias chega até as mãos. Cuidadosamente misturadas as cores, vão até o papel. O desenho está pronto. A utopia está criada.
A fantasia ganha forma, e cor.
O show começou. A multidão é incalculável até chegar à beirada do palco. Tudo o que você vê é a ponta dos cabelos. Quer mais, quer muito mais. Tenta dar dois passos, é empurrado de volta. A quimera lhe espera, você anseia por. Quanto mais longe você tenta chegar, mais é surrado pela multidão e mais afastado fica. Puxam-te pelos braços, pelos ombros e até pelos cabelos. Você se desespera, pois simplesmente não pode ir embora sem tomar noção da feição do seu ídolo. Os arranhões ardem em seus braços, a esperança em seus olhos está a um passo de vagar para longe. Tudo o que sente é a angústia a penetrar em cada ponto. Os segundos no relógio passam: você? Está mais longe do que no início.
O que almeja está muito distante. Em uma mata espinhenta e com plantas carnívora por todos os cantos. Quer poder certificar-se de que tem carne e osso. Movimenta-se, pensa e mede seus atos.
Uma parte racional prestes a afundar em sua cabeça diz que é besteira continuar. O fio de esperança quase inerte, mas ainda assim não quer ouvir. Não vai deixar de tentar. No fim das contas, a utopia serve para isso mesmo: para que você nunca deixe de colocar um pé frente ao outro. Os arranhões? Curam.
Assemelham-se às luzes dos navios que parecem estar parados lá na linha final do horizonte quando sentamos à beira da praia. Por mais que tente, não consegue ver nada além disso.
Talvez o que realmente importe você tenha, trancafiado numa caixinha de tocar música: o sonho. O platônico.
Uma mente sábia carrega uma utopia. Ela enche sua bolsa a tira-colo de persistência. Completa a palheta com as cores que faltam, dão conteúdo a sua mente para que trabalhe. Dia e noite, noite e dia.
"A utopia está lá no horizonte. Me aproximo dois passos e o horizonte corre dez passos. Por mais que eu caminhe, jamais alcançarei. Para que serve a utopia? Serve para isso: para que eu não deixe de caminhar." Eduardo Galeano.
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Um comentário:
lindo filha!
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