sábado, 28 de fevereiro de 2009

Invisível.

* Eu posso ver você.
Seus cabelos são negros. Escuros. Seus olhos cintilam à única luz do único lampião aceso na rua. Meu coração parou num baque surdo. Tudo o que eu sei é que você é místico. E mexe comigo.
Mais um passo. Mais alguns e eu estarei mais perto de você. Então você poderá me notar. Posso ver seu rosto franzir-se. Seu lábio se comprimir. Mais um pouco, mais um pouco... Agora. Olhou. Eu vi seus olhos pousarem em mim, eu pude senti-los.

E agora? Sorrio? Abaixo a cabeça? Aceno?

Optei por dar um sorriso torto e virar a cabeça. Levantei devagar e ainda vejo seus olhos na minha direção, mas com a expressão vazia. Como alguém que saiu de casa, sem rumo, e de repente parou com os olhos fixos no horizonte. O rosto duro. A cabeça, frenética.
Eu sinto que não posso simplesmente desistir. Me conformar que você não está interessado em me olhar de frente e voltar para casa. Não posso. Meu coração está aceso e minha alma com sede do seu olhar.

Eu vou me aproximar.

Um passo, dois passos, três passos. Estou a apenas centímetros de você.

Estico a mão. Sinto algo gelado e duro. Um vidro. Coloco a outra mão, apalpo nervosa o vidro sem propósito no meio da rua e vejo, de um lado para o outro, que não tem um sequer buraco. Não pode ser, isso não pode estar acontecendo. Vou fazer barulho para que ele me ajude a passar pelo vidro, pensei. Dei três batidas no vidro, um chamado, e... nada. Vejo seu nariz se mexer como quem sente um cheiro, um suspiro como se estivesse saindo de uma série de pensamentos; mas seus olhos continuam em mim. Além de mim. Olho pra trás em busca de alguém, alguma coisa. Nada. Estamos sozinhos na rua, apenas três elementos. Eu, ele e o meu coração que agora bate num ritmo que me assusta. Eu preciso tocar você. Mais um grito. Olhe-me.

Pisquei os olhos e o vi dar mais uma olhada na minha direção e ao meu redor, como se procurasse o emissor daquele som. Seu olhar parado em uma casa me disse que ele pensou ter vindo de lá. Simplesmente deu de ombros e virou de costas, voltando para algum lugar, o seu lugar. O lugar de onde jamais deveria ter saído. Do lugar para onde jamais deveria ter vindo. De algum outro mundo, talvez. Um mundo que eu nunca vou alcançar.
Vi seus olhos de repente se voltarem para trás. Olharem, sem verem nada. Sei que simplesmente não quer ver; sei que o fato é que não pode ver.



Sou invisível aos seus olhos.


Lambi o sal de meus lábios. E voltei para o meu mundo. Um mundo em que não existe você. Um mundo em que eu sigo sem metade de mim.

domingo, 8 de fevereiro de 2009

Relatos de um Ano Novo.

Ano Novo. Sonho novo. Expressão nova.

Lembranças velhas.

Uma tempestade de devaneios de repente varria o sangue das minhas artérias e isso fazia minha cabeça latejar no ritmo dos meus passos. Sua mão segurava a minha e eu espero não ter deixado o meu suor frio alcançar sua pele. O que aconteceu depois eu não tenho como transformar. É imagem. Está preso na minha memória e de lá não sai. Eu posso garantir a você, Sr. Tempo.


Ano vai, ano vem e eu não consigo tirar de mim essa sensação... Ah.
Enquanto meus braços não são capazes de te alcançar, contento-me com a certeza de que estamos sob o mesmo céu, e com a chance de estares olhando para a mesma estrela que eu.

Há algum tempo atrás...

Você me ensina como se chega ao torpor. Eu me sinto entorpecida com as suas palavras. É como se elas não fossem escritas, e sim recitadas. Como uma bela canção, que colocariam a sua pequena para dormir. Dormir num sono eterno. Porque eu morreria ao som das tuas palavras. Eu morreria para ouvir você me dizer cada uma dessas coisas com a boca colada no meu ouvido. Eu morreria para ter esses segundos de transcendência, de torpor infinito e de pulsação incontrolável. Eu te amo como amo a minha vida, porque não é como se você FOSSE ela, é só como se você fizesse ela ter alguma razão. Um cão seria um nada sem as quatro patas. Viveria ali, praticamente inerte. Assim eu seria sem você pra compôr a minha alma, o corpo que sustento, os meus desejos, as minhas vontades, o meu poder...

Inerte.