* Eu posso ver você.
Seus cabelos são negros. Escuros. Seus olhos cintilam à única luz do único lampião aceso na rua. Meu coração parou num baque surdo. Tudo o que eu sei é que você é místico. E mexe comigo.
Mais um passo. Mais alguns e eu estarei mais perto de você. Então você poderá me notar. Posso ver seu rosto franzir-se. Seu lábio se comprimir. Mais um pouco, mais um pouco... Agora. Olhou. Eu vi seus olhos pousarem em mim, eu pude senti-los.
E agora? Sorrio? Abaixo a cabeça? Aceno?
Optei por dar um sorriso torto e virar a cabeça. Levantei devagar e ainda vejo seus olhos na minha direção, mas com a expressão vazia. Como alguém que saiu de casa, sem rumo, e de repente parou com os olhos fixos no horizonte. O rosto duro. A cabeça, frenética.
Eu sinto que não posso simplesmente desistir. Me conformar que você não está interessado em me olhar de frente e voltar para casa. Não posso. Meu coração está aceso e minha alma com sede do seu olhar.
Eu vou me aproximar.
Um passo, dois passos, três passos. Estou a apenas centímetros de você.
Estico a mão. Sinto algo gelado e duro. Um vidro. Coloco a outra mão, apalpo nervosa o vidro sem propósito no meio da rua e vejo, de um lado para o outro, que não tem um sequer buraco. Não pode ser, isso não pode estar acontecendo. Vou fazer barulho para que ele me ajude a passar pelo vidro, pensei. Dei três batidas no vidro, um chamado, e... nada. Vejo seu nariz se mexer como quem sente um cheiro, um suspiro como se estivesse saindo de uma série de pensamentos; mas seus olhos continuam em mim. Além de mim. Olho pra trás em busca de alguém, alguma coisa. Nada. Estamos sozinhos na rua, apenas três elementos. Eu, ele e o meu coração que agora bate num ritmo que me assusta. Eu preciso tocar você. Mais um grito. Olhe-me.
Pisquei os olhos e o vi dar mais uma olhada na minha direção e ao meu redor, como se procurasse o emissor daquele som. Seu olhar parado em uma casa me disse que ele pensou ter vindo de lá. Simplesmente deu de ombros e virou de costas, voltando para algum lugar, o seu lugar. O lugar de onde jamais deveria ter saído. Do lugar para onde jamais deveria ter vindo. De algum outro mundo, talvez. Um mundo que eu nunca vou alcançar.
Vi seus olhos de repente se voltarem para trás. Olharem, sem verem nada. Sei que simplesmente não quer ver; sei que o fato é que não pode ver.
Sou invisível aos seus olhos.
Lambi o sal de meus lábios. E voltei para o meu mundo. Um mundo em que não existe você. Um mundo em que eu sigo sem metade de mim.
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2 comentários:
Gosteii Gi,continua fazendo,so li esse por inquanto,prometo ler o restoo (:
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