quinta-feira, 18 de dezembro de 2008

Essa abstinência há de passar.

"O oposto do amor não é o ódio, é a indiferença."
Se ouve por aí. Por entre as calçadas, por entre as árvores que distorcem a voz. Mas essa é interessante. E talvez pela primeira vez na minha vida eu consiga puxar do abstrato e dá-la as boas vindas: bem-vinda à minha vida real. Isso não quer dizer que eu goste de aplicá-la. Mas entre isso e a morte gradativa, eu fico com a primeira opção.

Uma pergunta vai dilatar minhas artérias. Antes que exploda, me deixa dizer.
Se a cada minuto da minha insônia o meu coração berra para que eu propague pelos meus músculos que eu não preciso mais de você, por que a tua indiferença ainda me dói?

O meu último pedido é que algum vento forte me leve para longe dessa vulnerabilidade. Diante de tudo, me sentir vulnerável diante de você é o que menos quero.
Mais do que cansaço de chorar as feridas encarando as pontadas arrastadas dos relógios - que parecem pulsar junto em mim -, cansei de correr no sentido contrário de uma multidão, para, no fim do caminho, ver a minha esperança desfeita em pedaços. Bem como o meu perfurado coração vermelho-fraco.

Só por hoje não vou tomar minha dose de você.

terça-feira, 9 de dezembro de 2008

'Ensaio Sobre a Loucura'

Sobre a mentira.
Às vezes esses fios parecem querer te trazer pra dentro de mim, pra esse espaço que eu guardo entre as costelas, para que de lá tu jamais possas ir a outro lugar. Conheço teus fios, e os vejo me envolvendo pelas costas, mas ainda não consigo sentir a todo minuto o cheiro de umidade característico do interior de átrios e ventrículos.
Eu estou exatamente como você me deixou.
Debruçada por sobre as minhas memórias, na tentativa de minhas lágrimas assumirem o poder de deteriorá-las. Corroê-las. Tentando disseminar a dor, para que ela não se estagne assim como o sangue quente das minhas feridas. Quem sabe se doer em cada ponto de mim, não seja mais capaz de me sufocar. Quem sabe se eu sentir o tremor em cada ponto de mim, não seja capaz de fraquejar. Possa manter a estabilidade.

Ainda posso sentir as suas garras. Agora não mais a tocar minhas feridas semi-curadas, mas entre as costelas que protegem os meus pulmões lutando enlouquecidamente para aniquilá-las. E aí, ver se eu enfraqueço. Estou esbranquiçada por cima da umidade do meu travesseiro, e o que acho de mais vivo em mim é o meu coração vermelho fraco dando suas últimas pulsações antes de ir. Antes que você consiga mostrar-se onipotente sobre ele. Para fazer o que quiser.

Como se eu já não soubesse que coisa é essa.
Quase posso ver as suas garras dobrando de tamanho, a satisfação tornando sua expressão estranhamente assustadora ao penetrá-las e sentir o meu sangue escorrendo por entre os seus dedos.
Está prestes a conseguir, trazendo sempre consigo nessa rotina ininterrupta o sol que, ao meu psicológico, é um ataque quase letal.
Se antes eu adormecia torcendo pelos dias ensolarados, hoje eu posso rir nos dias de chuva. Além de carregar com ela minhas lágrimas, sem distinguir, leva com ela as lembranças nostálgicas das tardes que vivemos embaixo do Sol.

A vontade que sinto é de aparecer, bem agora, na sua frente e gritar que a culpa é toda sua. Que foi você quem trouxe essa tempestade fora de estação. Por trás das minhas vestes encharcadas de lágrimas, eu diria, descarregaria parte desse peso que é viver lutando cada segundo para a minha fraqueza não me deixar cair.

Não quero meus joelhos sangrando.
Minha pele cuspindo sangue. Como uma torneira sem ninguém para fechar.
Não quero te dar esse gosto. Mais sangue meu indo embora, não.

Não agora.

sábado, 29 de novembro de 2008

O tempo passa. Mesmo quando isso parece impossível. Mesmo quando cada batida do ponteiro dos segundos dói como o sangue pulsando sobre um hematoma. Passa de modo inconstante, com guinadas estranhas e calmarias arrastadas, mas passa até pra mim.
E tudo o que eu ainda quero saber é porque teve que ser só um.

Um beijo. Foi tudo o que eu tive. Um só beijo. Uns minutos. Algumas pessoas têm a vida toda para sugar o doce dos lábios de seu companheiro, e eu tive uma única chance de me apoderar ao máximo do sabor dos seus.

Uma praga. Assim eu o sinto dentro de mim. Como uma praga que tivesse se estabelecido entre os meus ossos e sobrevivesse às minhas custas. À custa da minha tristeza. Quieta, quase posso ouvir as suas garras roçando as feridas do meu coração.
O seu alimento é o meu sofrimento. A minha dor. Ele quer me destruir; nunca é suficiente. Como o oxigênio chega à placenta pelo cordão umbilical, o meu vazio a desmanchar-se, o meu sangue fraco - incolor e inerte - chega até ele por cada um dos meus nervos.
As partículas se convertem em espinhos. Passam correndo, dilacerando. A aflição é tanta que eu sou obrigada a me contorcer. Para não sentir. Não ver o pedaço de mim indo embora transfigurado em facas, sem dó, com o riso ecoando dentro de mim.
Ele ri.

A sua sobremesa são as minhas lágrimas. Não há remédio que o combata.

Cada vez ele tem mais fome.

quarta-feira, 12 de novembro de 2008

No plágio de uma bela melodia...

Tudo é tão branco e sem razão
Não é um quarto, é uma prisão
E eu estou aqui tentando sair em vão
E nem que eu tente acordar
Não há como me concentrar
Pois o que passou marcou demais meu coração

E nada poderá mudar
O meu destino que é vagar
Pelo meu quarto vendo o teu semblante...
Tudo que eu não quero lembrar
Memórias custam a apagar
Daria tudo pra ser como antes
Pra mim...

E quando eu tento apagar
Da minha mente o que vivi
Não resta nada pra me tornar feliz
E aí eu tento aceitar
Que assim vai ser melhor pra mim
Mas não dá para acreditar
Não dá...

E se algum dia eu me livrar
Eu não irei comemorar
Pois estaria atestando a desistência
Mas eu não posso aguentar
Ficar aqui nesse lugar
Ouvindo a voz da consciência que me diz...
Que nada poderá mudar
O meu destino que é vagar
Pelo meu quarto vendo o teu semblante

Fresno - Teu Semblante. ♫

segunda-feira, 10 de novembro de 2008

“E aquela gaveta de felicidade já está cheia de ficar vazia.”

Agora eu me sinto insignificante. Não só pelo que aconteceu, pelas palavras frias que colidiram com o quente da minha aflição, ou do meu amor à flor da pele, lutando para não ir embora para sempre; não sei ao certo. Mas pelo que ele fez ao meu coração. Aos meus sentimentos. Ao meu amor. Eles, agora, não passam de pedaços destruídos, de restos do que um dia existiu crendo ser imbatível, vagando inertes pela frente do vazio que me ocupa.

Mais do que nunca, eu sinto repulsa aos casaizinhos felizes. Não suporto ver pessoas aos beijos. Amassos. Amor transbordando. Subindo pelo ar. Deve-se se não ao fato de que eu estou em carência de motivos para me achar feliz o tempo todo. Distribuindo sorrisos. E o meu coração desprovido de recursos para pulsar normalmente. Os meus pulmões reduzidos à insuficiência de fazerem o ar percorrer seu trajeto sem desvios.

É como se antes eu estivesse vivendo. E agora eu apenas sobrevivesse. Os meus pés me levam, mas eu não quero andar. Os meus olhos abrem, mas eu não quero enxergar. Tudo o que eu não quero lembrar memórias custam a apagar.
Eu entendo, mas não aceito. Convivo com isso. Como um remédio de comprimido que precisamos engolir, quando não conseguimos. A dor é insuportável e nos obriga a fazer esforço para engolir. Até que consegue.

Ainda procuro pelo torpor. Quero me sentir entorpecida, como num estado de transe. Como se desligasse algum fio da tomada e sentisse o latejar da ferida cessar.
E esquecesse, - não como um sono, porque ele aparece ainda nos meus sonhos (e até nos meus pesadelos) - esquecesse que eu ainda amo, que eu ainda sinto, que a ferida ainda está aberta. Em carne viva. Amo, no vazio. Amo fundo. Amo com sufoco.

domingo, 12 de outubro de 2008

Reflexo de mim

Com a música, eu sinto como se encontrasse o meu caminho de volta para casa. Nelas eu procuro as palavras que me faltam (elas falam por mim), o esconderijo que parece perfeito, a direção a seguir, as frutas a colher. As melodias que me cercam e embalam, como a um bebê. Isso tudo se torna ainda mais claro se quando sentido na pele. Digo, num show.

Eu sinto cada batida, cada nota, grave e agudo penetrar em mim. Os ouvidos funcionam só como receptores. Sua participação é pífia, se analisado o todo. No fim das contas, quem acaba mesmo por sentir são os meus pulmões, que berram, naquela histeria que pareia no ar. O meu coração, que pulsa freneticamente a cada pulo que dou, a cada vez que a emoção platônica toca mais fundo. Eu era quase capaz de ver as notas musicais saindo daquele palco, como pedaços fragmentados da emoção dos quatro, e pousando em cada um daqueles corpos que se sacodiam, numa intencional tentativa de se libertar. Aquele parece o lugar ideal, sem mais delongas.

É tudo uma loucura. Platônico, inventado, obsessivo. Mas eu pouco me importo. Tenho total consciência de que eles nem sonham com a minha existência, mas a minha voz ajudou a compor aquele coro uníssono do qual eles se orgulharam, aquela multidão que cantava a plenos pulmões, aquelas mãos erguidas que acompanhavam tudo, aqueles gritos receptivos e calorosos.

Embalada por tais canções eu aceitaria o apocalipse como um fenômeno natural sem avisos prévios. O mundo todo iria embora. Embora para sempre. O mundo todo, e, ao mesmo tempo, nada.

Pois assim eu sinto quando os versos sob ritmos tomam conta de mim.

quarta-feira, 1 de outubro de 2008

Assola a minha razão

Temer, ter terror, recear.
Eu tenho medo de muitas coisas. E não vejo o menor problema em admitir isso.
Algumas físicas, outras não.

Temo os meus piores pesadelos, temo os meus melhores sonhos. Temo a fúria enclausurada nas vestes sufocadas de alguns.
Temo a mim.
Isso é não por outro motivo se não porque me descubro a cada cascalho que tropeço. A cada gota que estala na minha vidraça. Esse medo é, talvez, o melhor dos medos. Pois teme o desconhecido. E não há nada melhor do que descobrir algo novo em você, ou desmanchar um temor do único modo aparente: encarando-o.

Sinto medo de encontrar-me no vazio que me habita, dos olhares que me atravessam e do que eles possam ver. Tenho medo de que a minha transparência se clareie a cada crepúsculo que chega, até que encontre um ponto onde eu perca todos os meus poderes de ocultar.
Seja como for, o meu medo me compõe, logo ao lado dos meus sentimentos. O meu medo me dá garras.

Sinto medo de me sentir feliz demais. É como se não merecesse tanto, e logo quisessem arrancar de mim um pouco dessa alegria. É muito provável que um dia, talvez breve, eu me sinta mais feliz do que um dia que me vi. Até porque, em inúmeras das vezes, a minha aparente felicidade não é nada se não uma capa que eu visto por medo (sim, mais uma vez) do que o transparecer da minha tristeza possa acarretar.

Tenho medo de que arranquem essa máscara que me sufoca e impregna, torna minha face disforme, empacota os meus sentimentos e rouba a minha verdade. Medo de que tudo desmorone sem que eu tenha provado de todos os venenos, de todas as poções mágicas e de todos os abraços. Medo de que o meu diferente se torne igual.

De todos os meus medos, talvez o que eu menos tema seja o de temer. Quero sentir medo. Quero me sentir humana. Quero me sentir mais viva a cada vez que o ar subir. Esbarrando-se na adrenalina que se expande por todo o meu corpo, fazendo o meu sangue borbulhar e o meu coração falar alto. Até o ponto em que se torna tudo o que eu ouço.
E me ensurdece.

quinta-feira, 18 de setembro de 2008

Uma voltinha de metrô

Eu nunca tinha andado de metrô antes. E por esta razão, resolvi compartilhar essa nova experiência na minha vida.
É TÃO, TÃO LEGAL. E tão rápido. Haha!
A companhia, também, era ótima.


Enfim... Estou indo acampar amanhã, e volto só no domingo. Isso significa mais alguns dias sem postar.

terça-feira, 16 de setembro de 2008

Em um mundo não muito distante...

Eu estava em outro mundo. Algum que não é Saturno, Urano ou Mercúrio. Muito menos a Terra. É um mundo, para poupar alguns esforços, perfeito. As preocupações você esquece. Deixa-as logo na entrada. No meu caso, logo no momento em que esperava por aquele grande avanço tecnológico, de um lado a outro do corredor, que me levaria do décimo primeiro ao andar térreo.
Nesse mundo, tudo é mais singelo. Ou assim eu via. Os ponteiros do relógio rastejam em sincronia diferente, as vinte e quatro horas duplicam ou até triplicam. O ar fétido e pesado agora é puro como as águas que nascem. Não há pessoas ruins, não há perigo, medo ou tristeza. Não enquanto nossas peles se comunicavam e enquanto eu me ajeitava em seus braços quentes. E não muito tardou, foi só o crepúsculo dar as boas vindas e mais algum tempo para que a Terra me chamasse de volta. Foi então que eu senti o vento frio. Só aí. Colidia com a temperatura mais alta que saía dos meus olhos.

Esses mesmos, que, nesse tempo, funcionaram como câmeras. Atentas e focadas. E que junto aos meus neurônios pensantes e sensitivos, não me deixaram perder um só detalhe. Minha pele e o meu coração sentiam, o meu cérebro tratava de responder, e a minha memória, de armazenar. Em um espaço que é mais do que a conhecida como memória de longo prazo. Não é só um longo prazo. Isso parece muito pouco... É eterno.
De todas essas imagens, estáticas e contínuas (fui capaz, de tanto que me retinha a cada brilho que transluzia, a meu ver, em seu olhar) produzi um filme. Que foi colocado no meu aparelho de rodar fita, e que não faço idéia de onde deixei o controle de pause. Também não faço a mínima questão. Esse é o filme que eu assistiria se tivesse de escolher o que fazer como última coisa na vida, descobrindo sempre um tom diferente no seu timbre de voz. E que começa a rodar no instante em que abro os olhos, a só dar uma folga quando jogo o corpo sobre a cama.

Viver, sentir... Cada uma daquelas coisas que até então só tinha tido em palavras, eu pude agora ter além. Posso garantir que muito além do que eu projetei ter um dia. Medir a temperatura da sua pele ao tocar a minha, recostar a cabeça no seu peito e ouvir o som da freqüência das batidas do seu coração a penetrarem meus ouvidos, me afogar em seus cabelos e deixar o perfume que eles carregam entrar junto ao ar em meus pulmões, purificando qualquer que fosse a impureza dentro deles.

Ali, encontrei a essência que me deixava mais formosa, o brilho que me deixava mais sorridente, o remédio que sarava minhas feridas e, acima de tudo isso, o que eu nem podia imaginar que me faltava. Senti-me mais completa do que nunca, me encontrei no entrelaçar de nossas mãos, me transcendi no choque do encontro do brilho dos nossos sorrisos, que um no outro produziram um prisma, e refletido nas águas límpidas do rio daquele parque, originaram as sete cores do arco-íris que vi em meus sonhos.

Eu não perdi nada. Da surpresa do primeiro abraço aos últimos carinhos em seu colo antes de partir, o relutante não querer soltar seus dedos, a deixar-te lá, e o teu semblante que espiei por entre as malas que tapavam quase toda a visão do vidro traseiro do carro. Você parecia não querer acreditar que aquele carro ia para não voltar mais, e eu também não.

Trouxe comigo a exata descrição do seu rosto redondinho, e a certeza de que as lágrimas nada mais foram do que um mesclado do meu coração a pulsar até quase parar, minha alegria incessante, a minha alma enobrecida e completa até demais, e por fim minha angústia, que juntos, agora, transbordavam sem saber por onde.

sábado, 6 de setembro de 2008

Um dia ela me escreveu...

Fecho os olhos, e penso em como dizer
Palavras vêm e vão, e não consigo me reter
A uma frase pronta, que pudesse expressar
E acho que palavras eu já não sei mais usar
Vou dar o meu melhor, usar a sinceridade
E chegar o mais perto do que eu chamo de "verdade"
Que teu sorriso é o meu sorriso, tua risada me faz rir
Que lembro de você todo o tempo, quando acordo ou vou dormir
Que teu rosto me traz paz, posso sonhar em te tocar
Sentir sua respiração em meu peito, a cada vez que o ar entrar
Chorar no teu colo, te assistir dormir, pequena
Dói estar longe, a distância mata, envenena
Mas nada muda, nada tira, minha querida
Aquilo que é teu, seu lugar na minha vida.


O envelope preto trazia uma folha com desenhos bonitos e a tão delicada fragância que enchia os meus pulmões a cada inspiro, me levando, a cada verso desse poema que trazia, sempre um passo para mais perto dela.

Está chegando. Cada vez mais. O próximo envelope trará relatos dos intermináveis dias, e da crueldade de me fazer voltar. A deixar-te lá. O que terei, pois, cuidarei de usar como consolo às minhas inquietantes saudades, junto ao maior deles: sua pele tocou a minha.



P.s.: estou indo viajar. Até segunda.

quarta-feira, 3 de setembro de 2008

Utopia

O papel está sobre a mesa. A lapiseira ao seu lado foi postada na exata diagonal da folha em branco. Os dias se passam, o vento invade as grades da janela e o papel não se move um centímetro. Está a salvo de qualquer respingo. Por alguma razão, que só o destino (não que eu acredite nele), e mais ninguém sabe, algum dia, o papel é colocado de modo que facilite a mobilidade das mãos. A lapiseira fica em pé. Vêm os primeiros traços. Firma-se nos dedos.
A palheta de cores primárias chega até as mãos. Cuidadosamente misturadas as cores, vão até o papel. O desenho está pronto. A utopia está criada.

A fantasia ganha forma, e cor.

O show começou. A multidão é incalculável até chegar à beirada do palco. Tudo o que você vê é a ponta dos cabelos. Quer mais, quer muito mais. Tenta dar dois passos, é empurrado de volta. A quimera lhe espera, você anseia por. Quanto mais longe você tenta chegar, mais é surrado pela multidão e mais afastado fica. Puxam-te pelos braços, pelos ombros e até pelos cabelos. Você se desespera, pois simplesmente não pode ir embora sem tomar noção da feição do seu ídolo. Os arranhões ardem em seus braços, a esperança em seus olhos está a um passo de vagar para longe. Tudo o que sente é a angústia a penetrar em cada ponto. Os segundos no relógio passam: você? Está mais longe do que no início.

O que almeja está muito distante. Em uma mata espinhenta e com plantas carnívora por todos os cantos. Quer poder certificar-se de que tem carne e osso. Movimenta-se, pensa e mede seus atos.
Uma parte racional prestes a afundar em sua cabeça diz que é besteira continuar. O fio de esperança quase inerte, mas ainda assim não quer ouvir. Não vai deixar de tentar. No fim das contas, a utopia serve para isso mesmo: para que você nunca deixe de colocar um pé frente ao outro. Os arranhões? Curam.

Assemelham-se às luzes dos navios que parecem estar parados lá na linha final do horizonte quando sentamos à beira da praia. Por mais que tente, não consegue ver nada além disso.
Talvez o que realmente importe você tenha, trancafiado numa caixinha de tocar música: o sonho. O platônico.

Uma mente sábia carrega uma utopia. Ela enche sua bolsa a tira-colo de persistência. Completa a palheta com as cores que faltam, dão conteúdo a sua mente para que trabalhe. Dia e noite, noite e dia.


"A utopia está lá no horizonte. Me aproximo dois passos e o horizonte corre dez passos. Por mais que eu caminhe, jamais alcançarei. Para que serve a utopia? Serve para isso: para que eu não deixe de caminhar." Eduardo Galeano.

segunda-feira, 1 de setembro de 2008

How do you describe a feeling?

Há quem acredite que escrever, expressar-se quando se está sentindo é mais fácil. Soa como despejar um pouco da carga, e colocar um pouco desse peso centralizado na cabeça em algum outro lugar. Eu também pensava assim, mas já não tenho tanta certeza agora. Talvez quando o que você tenha a pôr em linhas sejam frases feitas e sentimentos vindos de balões coloridos seja menos difícil do que quando os balões foram todos estourados e a festa chegou ao fim.

Pode ser porque num momento em que algo dá errado, sua mente se preocupa tanto em remoer por incansáveis horas aquela idéia que a sua mente coloca uma placa de “stop” e bloqueia qualquer outro tipo de tentativa de pensamento ordenado. Ao mesmo tempo que escrever me faz bem e é disso o que eu preciso, não tenho certeza se o que consigo exprimir tem algum conteúdo, uma vez que a placa ali em cima tratada insiste em fincar ao chão.

O que eu sinto é muito.

Os meus sentimentos variaram, e bastante, já. Passou por tristeza, raiva, decepção, utopia desmanchada, sonhos sequer fundamentados caindo por terra e pensamentos nostálgicos entristecedores. O trem deu partida no exato ponto leste, com rumo ao oeste, onde a parada é definitiva. Durante o caminho, pára em vários pontos e estações, todas vazias, mas cheias de histórias para contar e um ponto que nos tenta a refletir. A passagem por cada uma é lenta, dando tempo de absorver. Mas não desço. E não tenho certeza de quando isso irá acontecer. Quem sabe quando as peças do quebra-cabeça apartadas pelo vento voltem a se encaixar onde fragmentavam o desenho como um todo. As idéias em seu devido lugar.

Só que aí, quem sabe quanto tempo leva?
Não é como uma mancha de barro no tênis que a chuva limpa. Demora. Muito mais tempo do que a fase inicial, do conhecer, do aproximar. E enquanto isso, apenas o que me resta é continuar com os olhos atentos nos ponteiros do grande relógio no topo frontal do trem, até que meus olhos peçam por um piscar, e até que a voz do meu coração que tanto palpita aqui dentro anuncie a hora de descer. Porque se é ela quem dá as ordens ao meu cérebro, ela tomará essa importante decisão.

Eu só preciso descer nessa última estação, e correr por entre os caminhos inexplorados em busca do meu novo ponto. O ponto de partida.

sexta-feira, 29 de agosto de 2008

Refúgio

Um mp4, uma música, um livro, uma revista, um fechar de olhos, um gramado, um quarto trancado, um diário, ou, por que não?, o seu próprio silêncio. Dentre os possíveis, sou mais esse. Talvez seja por ele abrigar todos os outros. Eu escolho o meu silêncio como o meu refúgio porque ele não exige de mim explicações. Acolhe-me e me deixa. Não reprime uma lágrima, ou um sorriso. Ou até mesmo um grito. Sinto-me num mundo delimitado, presa, e ao mesmo tempo completamente livre. Presa por tentar e não conseguir sair, ainda que aquela seja a minha fuga, ela me leva diretamente a uma prisão de minhas próprias memórias. Livre, por poder exprimir as minhas angústias.

É só porque prefiro o direito de escolher a minha prisão. E entre o que vejo pelo canto embaçado dos olhos e o meu próprio, fico com o segundo.

As razões pelas quais o refúgio passa a ser perseguido são inúmeras. Por vezes a maneira encontrada é tão baixa por conta dos distúrbios das idéias e da busca desenfreada por correr logo daquela multidão de faces tortas que acaba por não ajudar em nada. Pelo contrário: as atitudes que porta são tão deploráveis que seus olhos entregam um pedido de socorro ensurdecedor.
Amores platônicos ou não recíprocos têm voz própria, e essa berra por uma fuga, em um cantinho que as lágrimas possam ser revertidas em pérolas.

No fim, você se vê rico.

A parte pensante cabível a mim está bloqueada agora, por alguns motivos que a minha voz opta por não proferir. E isso me faz ter mais vontade de correr para o fundo do meu beco escuro, onde os latões não têm lixo, não estão derrubados e nem cheiram mal. Mas sim bichos de pelúcia com o meu cheiro.

Não que o mundo esteja de forma que nós, mortais, nos encontramos prestes a tocar o arco-íris com a sola dos sapatos. Quase isso. Mas ainda assim, é só que a platéia que lhe assiste não lhe aplaude, e nem você conseguiu ainda identificar um fã que tenha o mesmo jeito de interpretar que você tem. E ainda que tivesse um, dois ou mais, um pára-quedas sempre pousa arrancando um risquinho de grama ao te fitar, trazendo consigo o motivo que quase sobra para você tatear, às cegas, na busca pelas quatro paredes com cores em tons bebê, o cheiro suave, o som a seu gosto e os pensamentos correndo livres. Com o coração na mão, a escorrer por entre os dedos separados milimetricamente e estáticos. A seu gosto, com a quietude que vem como uma manta de lã em uma noite gelada. Aquele que dê colo. Sem mais palavras.

Sem mais perguntas.

sábado, 23 de agosto de 2008

Sinceramente...

O inesperado é, obviamente, algo pelo qual não esperamos. Cai de repente, bem em nossa frente, trombando conosco, em alguma parte incerta do tempo. Como um anjo que padece, batendo às pressas as asas, sem um rumo certo, mas com um objetivo a alcançar.

E, então, ela entra. Sem dizer “com licença”, sem perguntar se pode. Em algo menor do que um piscar de olhos, você se vê completamente tomada. Pelo quê, exatamente, não entende. Só é como comer um pedaço de chocolate depois de morder um limão. Você diferencia o azedo do doce. O bom do ruim. O agradável do desagradável.

Não que eu acredite em Conto de Fadas. Aliás, nunca me achei princesa o suficiente para ter o que sustentasse a minha fantasia. Nem esperei por um príncipe montado em um cavalo branco, que tivesse asas angelicais e galopeasse em ritmo medido. Apaga essa parte da fita. Esquece a história do filme da Disney, e foca no que é possível ter mais do que um sonho. Isso não necessariamente apaga a parte do príncipe. Só a do cavalo branco. Pode ser algo que misture Shrek com Cinderela...

Tudo o que sei, é que não se assemelha a como se você levasse um tiro enquanto corria por aí. Porque isso te feriria, apesar do inesperado. Assemelha-se a um céu escurecendo aos poucos, o chuvisco molhando fio a fio de seu cabelo. E aí, dentro de poucos minutos, o arco-íris invadiria esse mesmo céu em questão. Em leves pinceladas de aquarela, mas nada que atuasse a fim negativo. No fim das contas, a chuva servira para engolir a monotonia.

Nota: Depois de várias noites sem sonhar, eles finalmente vieram.

Não é um príncipe com cada uma daqueles traços perfeitos, mas o que eu posso ver em você é até melhor do que isso. Eu sempre gostei do que se aproxima do surreal, logo, o que passa longe do padrão comum me atrai numa escala elevada. O que pareceria incomum aos olhares fugazes, é, de longe, o que faísca aos meus.
Não estou muito certa do que atrai a minha atenção. Nem do que rapta os meus pensamentos, no vácuo complexo em que eles se mantêm.

Para ser franca, tudo o que sempre realmente importou para mim dessa frescura de Contos de Fadas e daquele possível “tudo” o que uma menina sonha, eu tive. Pela primeira vez.
(...) O céu com poucas nuvens punha em baixa a idéia de procurar formas nelas. Ao passo que o céu mudara de cenário para uma escuridão gélida, novas peças naturais se dispunham a incrementar o dia proveitoso que tinha se passado.
Com as cabeças recostadas no banco, pudemos notar. No meio de tantas, uma brilhava mais. Mais do que todas as outras. Só o que não ouso dizer, é que reluzia mais do que o seu próprio olhar. Escolhemos um nome para ela. Tomamos posse.

Ainda que muitos já o tenham feito, a nosso ver, ela é nossa. E ninguém mais precisa enxergar essa pureza. Eu não só gosto do modo como você mostra cuidado, mas de como seus olhos vêem a mim. Seus olhos captam, e as mensagens do seu cérebro tratam de emitir em som. Têm vezes que eu gostaria, mais uma vez, de me aproximar de algum ser não-humano, e ser capaz de ler mentes. Mas só naqueles momentos em que o silêncio se propaga pelo ar, enquanto as palavras certas são perseguidas. Se elas não vêm, o sorriso pode se responsabilizar de cumprir o papel. Talvez até mais eficazmente.

Deixe-me medir a temperatura da sua pele. Essa que abriga o aroma que tanto insiste em tomar a minha como refúgio.

Quero sentir os seus dedos, segurá-los contra os meus, disparando em desjeitosos passos que os seus, em meus calcanhares, carregariam-se de endireitar.

“Gostei do seu charme e do seu groove, gostei do seu papo e do seu perfume.”
“I don't see what anyone can see, in anyone else but you... Du du du du du du dudu.”

terça-feira, 19 de agosto de 2008

I just woke up from a fuzzy dream

Os sonhos se diferem dos pensamentos, dos devaneios e até mesmo do sonhar acordado no momento em que se avalia o estado consciente da mente. Nos pensamentos enquanto acordados, somos capazes de controlar, ou se não, revertê-los para algo que nos faça sentir menos incomodado. Nos sonhos, isso não acontece.

Neles, vagamos, em algum ponto dentro do nosso cérebro, por lugares que não conhecemos, não definimos, não entendemos. Pessoas fazem aparições inusitadas, rostos desconhecidos passam a compor o espaço, histórias que misturam alguns fatos reais com as coisas mais esquisitas ajudam a formar aquele conjunto de imagens malucas chamadas de sonhos.

É como se uma rede te puxasse, e dali em diante, te guiasse e conduzisse, ainda que contra a sua vontade, por entre esses estranhos caminhos e envolvimentos. Você, por vezes, se envolve tanto naquela viagem subconsciente que, ao despertar, acaba por crer que aquele desencadeado (e recém trilhado) caminho realmente aconteceu. Ultrapassou os limites de pálpebras delicadamente coladas em um corpo estirado. E livre. O seu corpo relaxa, vai perdendo a força em cada ponto de você, à medida que o sono vem te buscar. Com mãos suaves, interrompendo uma linha de pensamentos, trazendo consigo o poder de acalmar. Mas, ainda assim, entrega esse leve corpo diretamente a outro estágio; outro setor. Que irá engolir-te, persuadindo-o com outra grande série. Essa, agora, que você pouco pode fazer para interferir. E é claro, também, com as diferenças que já citei acima.

A próxima interrupção poderá ser voluntária, quando o sono tiver escasso. Ou, ainda, uma forçada, com alguém te chamando da porta do quarto ou sacudindo seu corpo. Aí, demora um pouco mais para largar o mundo dos sonhos. E, por vezes, você sente raiva por ter sido interrompido justo naquele momento. No ponto máximo. Resgatar, depois, ou reatar aquela ponta que foi rasgada no meio, é impossível.

Há os sonhos ruins. Que passam, então, a ser chamados de pesadelos. Esses, por algum motivo que não entendemos, nos jogam em uma cavidade obscurecida. Os personagens que entram em cena, os protagonistas e os antagonistas não pretendem mais estrelar um filme alegre. Provocam algo de ruim, algum mal a alguém que conhecemos. Acordamos de um salto, no meio da noite. Apavorados. Os segundos rastejantes nada ajudam se não exercendo pressão sobre nossas têmporas ao pensar. E assimilar a idéia de que foi só um sonho. Opa, um pesadelo. Muita gente acredita que eles querem dizer alguma coisa, na maioria das vezes, o que vemos nos sonhos tem grande chance de acontecer de verdade. Eu, particularmente, não acho que seja verdade. Abstrato, e longínquo demais para mim.

Eles dão voltas, rodeios, o cenário muda, a platéia é outra. Assim, sem mais nem menos. Isso só torna tudo mais indecifrável ainda.
Mas, de uma forma geral, é agradável sonhar.
O tempo de sono parece se alongar, e foge um pouco daquela coisa simples e monótona. Aquela perda de tempo. Onde as horas passam só nos ponteiros que giram frenetica e inquietamente. E principalmente porque você se permite correr riscos, a começar do momento em que se entrega. Roçando a parte superior e inferior dos olhos umas nas outras, a respiração mais sutil, para ficar de acordo com o ambiente acerca.

Ao menos você tem no que pensar. Sobre o que pensar. Tentar montar o quebra-cabeça, seja para confiar nele ou não. Ele pode te fazer sorrir, logo ao amanhecer, quando se dá por conta, tempos depois, dos caminhos que trilhou.


Essas siglas indecifráveis rendem tecidos. Com certeza esse mesclado de idéias e momentos rendem.

Ah, isso lhe garanto.

sexta-feira, 15 de agosto de 2008

A carta.

Foram oito longos dias. Numa quinta-feira do mês de Agosto, estava sendo colocada a carta, pronta a seguir o seu destino, no seu impecável envelope preto escrito, em caligrafia retinha, a uma caneta prateada. Era o meu nome endereçado.

Vi-me, durante todos esses dias, correndo em direção da janela que dá vista para fora, durante a tarde, nos horários que eu achei que o carteiro poderia chegar. Em todas elas via sempre a mesma coisa: a caixa vazia. Num primeiro momento uma decepção, logo depois uma irritação enchiam-me por dentro. Eu não via a hora de ter aquela carta em minhas mãos, eu mal podia esperar para devorá-la.

Foi então que hoje o barulho da buzina de uma moto me assustou. Dei um pulo, sorrindo algo que carregava esperança, mais para mim do que qualquer outra coisa, nos poucos passos do sofá até a janela. Era ele. O carteiro, até que enfim, tinha chegado. Corri para chamar o meu irmão, pedindo que ele fosse buscar. Antes mesmo que ele entrasse pela porta, eu estendi as mãos pela janela e pedi que ele me entregasse. Segurei aquele envelope recheado nas mãos e corri para o meu quarto. Ajeitei-me em minha cama. As pernas cruzadas, estilo perna de índio.

De imediato, vi que tinha sido muito bem colado, e mesmo com o aviso (que inteligentemente, só pude ver depois de aberto) não pude deixar de dar uma pequena rasgadinha. Mas foi pouco. Tive o auxílio de uma régua para isso. Tratei de tirar todos aqueles pedaços pequenos de papéis, três maiores e alguns pequenos soltos. Os origamis. Oriundos de medidos e leves toques.

Descrever uma sensação como essa não é tarefa fácil. E de longe é uma das melhores que posso sentir. Uma que abre um largo sorriso e sente o gosto de uma ou duas lágrimas alcançando o espaço que acaba de se esticar. Em meio à euforia, não sabia nem por onde começar. Acabei decidindo pelos menores. Na maior delas, o meu olho mal conseguia captar palavra por palavra. Eles corriam, passeavam, dançavam por todas aquelas palavras que pareciam estar sendo sussurradas, logo ali contra meus ouvidos. Eu precisei reler. Mais uma vez, e outra, e outra.

Eu não tenho palavras. Todas elas ficaram dispersas em variadas moléculas do ar que agora fugiam do meu alcance.

Com a cabeça recostada na almofada, abria o pequeno pedaço de papel que atendia ao meu pedido, tinha o cheiro. Inspirava aquele aroma que invadia minhas narinas, e em segundos, estava pelo quarto todo. Pude sentir mais claramente quando saí e entrei de volta. O cheiro dela rodeava cada canto daquele cômodo. Isso tudo me acertara de tal forma, me atingira como um jato de um raio de sol após semanas chuvosas e nubladas, que eu quase pude ver sua figura, aquela que eu podia sentir, tocar... Exalando aquele perfume, sibilando aquelas palavras por entre lábios cerrados. Baixinhos, calmos e serenos. Daquele mesmo jeito que encheram tantas vezes os meus ouvidos no telefone.

Deixando suspensas no ar as partículas de emoção que caíram enquanto uma face de sua mão roçava aquele pedaço de papel.

Por falar em telefone, a minha vontade antes mesmo de abrir aquele envelope, era de discar o número de seu telefone, deixar uma daquelas frenéticas recepções escaparem, em meio a ofegos e sorrisos que quase falavam mais alto do que minha própria voz.

O coração, delicadamente pintado, trazia duas metades, e cada uma contendo um de nossos nomes. Foi imediatamente parar em cima de onde meus olhos se grudam e minha mente viaja por onde eu ainda não passei, por sob os quais eu não mantenho controle. Em um mural com fotos minhas, agora com um toque singelo. Um toque seu.

Você só tem adocicado tudo o que parecia amargo a meu ver, a nossa estrela parece brilhar mais do que nunca. Ela absorve nossos pensamentos e as faíscas reluzentes do nosso olhar pousam todos lá. Ela parece saber que, agora, não há mais verdade alguma oculta. Juntas, iremos alcançá-la. Os nossos sonhos são tudo o que não têm o direito de arrancar. Você me invade de um jeito incomum. Traspassa. E assim, consegue, melhor do que muita gente, tornar claro o que o que os meus olhos não enxergam. Eu absolutamente adoro isso.

Logo, logo, eu vou recostar a cabeça no seu peito e ficar a medir a freqüência da sua respiração. Irei voltar para cá capaz de definir e descrever cada traço seu.

quinta-feira, 14 de agosto de 2008

Metamorfose ambulante

Eu já fui várias. Já existiram várias de mim. Quer dizer, não tantas capazes de preencher um vasto espaço, mas existiram. Mudar de estilo, as roupas que usa, as bandas que ouve e o ângulo da tesoura no cabelo não são nada que foge do normal. Afinal de contas, todos crescem e renovam seus gostos.

Sinto como se um ser pensante interno vagasse, entrasse e, depois de algum tempo, saísse. Por um mesmo corpo. Ainda que a transformação seja tamanha e o resultado quase irreconhecível, não vamos nos iludir. É a mesma. Sempre foi.

Muita gente (e eu me incluo nesse grupo) sente interminável vergonha de si próprio olhando algumas fotos velhas, dos anos que se passaram. Por vezes é realmente vergonhoso e até entristecedor. Porém, nem tudo é tão ruim como parece. Basta você trocar os olhos supérfluos por uns mais aguçados.

Você aprendeu algo com isso, isso é certo.

Não me arrependo do que já fui um dia. Nem com o que ouvi ou deixei de ouvir vindo de outros.
Foi então que, em algum momento do tempo, incerto e talvez até inesperado, esse ser interior sujeito a trocas e mudanças saiu, dando lugar a um novo, a um que lhe soasse mais familiar. Mudança faz parte da jornada da vida, e nesse aspecto, muito mais aparente na vida de um adolescente em fase de desenvolvimento. De criação, de formação. Tanto de opiniões quando de personalidade. Entrando em uma desenfreada busca por aquilo que mais se aproxima de você, aquele mundo que mais te entende e te acolhe. Arrependeria-me se tomasse sabedoria de um só universo, um só conjunto de gostos, uma só “tribo”. Apesar de detestar esse termo.

Contudo, basicamente, o meu eu interno sempre foi o mesmo. Quero dizer, não desde sempre, mas ao menos desde que sou imbuída o suficiente de esperteza. E era por ter isso em mente que entrava num vazio inconsciente diversas vezes pelo fato de ser menosprezada por passar o lápis preto no olho de um jeito diferente. Por que aquilo era menos humano? A minha pessoa que todos conheciam ainda vagava aqui, sentimentalmente constando. O que mudara era somente o meu modo de ver o mundo. Todos me pareciam insignificantes, e aquele estilo, mais tentador.

Posso ainda mudar, posso libertar vários seres secretos e ocultos. Mas eu, particularmente, me gosto muito atualmente. Talvez dissesse isso há uns meses atrás, quando nem sonhava com uma mudança assim. Só que isso não importa. Ser aceito pela maioria comum da sociedade não faz de você alguém melhor. Só é mais alguém. Ofuscado em meio a tantos. Então, se me der na telha adotar viver com uma melancia na cabeça, eu o farei. Escutando baforadas de insultos, mas quem são eles? Quem são todos eles?


Eu prefiro ser essa metamorfose ambulante do que ter aquela velha opinião formada sobre tudo.

quarta-feira, 13 de agosto de 2008

My hero.


Ontem não pude postar, mas foi aniversário do meu irmão. E então, vou fazer isso agora.


Irmão é algo engraçado. Porque querendo ou não, ele é parte de nós. E querendo ou não, também, é uma relação forçada. Quero dizer, se ele não fosse meu irmão (sei, se ele não fosse ELE, nesse corpo que sustenta, nem existiria, mas pensa comigo) eu poderia nem conhecê-lo. Só que ele vive debaixo do mesmo teto que eu desde que eu dei boas-vindas ao mundo, e ele saiu para este mesmo exatamente do mesmo local que eu. Nós dois somos um resultado duplo de uma mesma expressão. Um mesmo cálculo, uma mesma soma. Uma que veio inesperada, e a outra programada, para uns cinco anos depois.

Não somos capazes de escolher a dedo quem queremos que seja nosso irmão. E se você for pensar, isso é ótimo. Mesmo com todas as desavenças. E é justamente aí que está o motivo. Por exemplo, se você tem um amigo que conhece há tempos, já pode ter pensado em como seria legal se ele fosse seu irmão. Mas se fosse, esse vínculo de amizade certamente não seria tão resistente como é. As brigas, com o tempo, a desgastariam. E mesmo que não, sempre tem uma cutucada daqui e um pontapé de lá. Nada grave, mas algo que possivelmente complicaria a leva de sentimentos.

Sinceramente não acho que um namorado seja metade de você. Nem um marido, até. Essas coisas muitos dizem, e é apenas um eufemismo e algo que encurte tantas coisas a serem ditas, mas não é uma verdade. Não ao pé da letra. O meu irmão é metade de mim, e isso ele é mesmo. É, também, algo que encho a boca para contar.

Vendo, hoje, as coisas que eu dizia a você há uns anos atrás, parecem até inacreditáveis. Não, nada de cabuloso. Por isso mesmo. Eu dizia que o amava, que era o melhor irmão do mundo... Entretanto, o que me lembro dos anos que se passaram são pequenas, vagas e falhadas lembranças. Isso só prova que eu proferira tudo, sempre, com a mais pura sinceridade, a verdade intocável de uma criança que pouco sabe da vida, e que a própria base está a palmos de distância. Talvez num mundo completamente oposto e bombardeado de informações a todo instante, mas que via com clareza o pequeno mundo que em volta de sua irmã girava. Como uma roda-gigante, ou um carrossel, acompanhado de uma serena canção que acalma.

As nossas brincadeiras de infância hoje te envergonham e te constrangem. A mim não. E se pudesse, as repetiria, reviveria e reinventaria cada uma delas. Com você; e por você. Nada me causava aquela sofrida dorzinha no pâncreas e por vezes até um xixi na calça como as suas palhaçadas. Eu tinha o meu próprio circo em casa, não precisava visitar qualquer um que chegasse à cidade. E o meu artista era o melhor de todos, exibindo-se para uma só platéia, aquela que era a sua maior e mais fiel fã. Talvez nem tivesse tanta graça assim, mas você estava fazendo para mim, eu era a bola do seu futebol. E aí é que está o ápice da história. Também, o máximo é que as apresentações continuam até hoje.
As maluquices variavam desde usar-se de fantasias improvisadas, nomes bizarros e um tempinho antes do café da tarde, (agora a platéia aumentara: avó e bisavó), até corridas segurando-se firme nas costas, com aquelas vozes brincalhonas que só você sabia fazer.
Tudo o que sou capaz de lembrar-me de minha infância, logo avisto o seu rosto estampado ao lado do meu. Colorido. Completo. E isso me faz indagar como seria se o seu lugar fosse um lugar vazio. Minhas recordações também seriam. O meu álbum de fotos estaria incompleto.

Você me estendeu o lápis de cor amarelo quando a última figura para se pintar no meu desenho era um sol. E se por ventura, tudo o que faltasse para terminar de colorir o seu fosse uma cor raríssima, eu iria buscá-la para você. Iria buscar a sua fruta preferida, no topo da mais alta árvore. Alcançaria, carregando comigo toda a força que você fez florescer dentro de mim, e voltaria com os cotovelos calejados e os olhos fundos nas olheiras, mas um brilho encheria os meus olhos. O brilho da realização de fazer concretizar um sonho seu.

Você é o laço que eu reataria quantas vezes fosse preciso, caso se soltasse, mesmo por frações de segundos. Eu o daria de volta, medindo cada lado, igualando cada borda. Faria isso mil vezes. E aquele, também, que eu sinto fortalecer-se dentro de mim a cada dia que passa, a cada dia que eu me sinto mais em você. Como o cadarço do tênis que se solta e, quando refazemos, é com mais firmeza. É o laço que tempo nenhum corrói. Laço que ferida cura, lágrima afaga e coração aquieta.

Podemos não tomar muita noção ainda do quanto iremos precisar um do outro. Ou digo isso por você, não sei ao certo. Mas o tempo vai dando conta de tornar visível para nós coisas assim. Temos a prova agora. Damos-nos muito melhor do que antes. Eu amadureci, e você viu além, passou a enxergar em mim uma amiga, e não só uma irmã mais nova que torra a paciência.

Eu te conheço como ninguém. O mesmo sangue corre em nossas veias. Todos os seus segredos que possuo em mente estarão muito bem guardados, num cantinho que separei só para eles. Trancafiados a sete chaves. Não tema contar alguma coisa para mim, eu sou sua irmã. E se tem coisa que não divido com você, e não é por conta da sua tiração de sarro sempre que eu quero dizer alguma coisa, é por algum outro bom motivo.

Feliz aniversário mais uma vez, você merece o melhor nessa vida, por tudo o que já passou. Eu te aceito assim como você é. E faço isso porque sei que faria o mesmo por mim.

Diria Aristóteles, as contendas e ódios mais cruéis são os dos irmãos, porque os que muito se amam muito se aborrecem. Isso esclarece alguma coisa, maninho?

segunda-feira, 11 de agosto de 2008

Nostalgia.

Não são poucos os fatores que me fazem sentir. E nem sei se consigo converter em palavras alguns deles. A nostalgia é um sentimento que advém de outro, é a melancolia provocada pela saudade, diz o dicionário. E por não ser algo concreto, é difícil de descrever. Muitas vezes o que você consegue tirar disso, desse momento cabisbaixo, publica em suas próprias mágoas e rejeita qualquer possível entendimento de outrem, por ser algo que toca seu íntimo. E é só seu. Como o que vale muito quando você não tem nada, mas ainda assim se recusa. Por todo e qualquer dinheiro.

Não é algo que afeta exteriormente. Talvez justamente por não ter chances de balancear, acaba se tornando mais doloroso ainda. Tudo despenca mesmo ali, única e exclusivamente no interno do seu ser. Não é, também, algo que podemos sentir em contato com a nossa pele. Quero dizer, não podemos pegá-lo, nem segurá-lo contra nosso peito. Não tem forma, não tem cor, nem textura. Mas é o que podemos sentir nas nossas lágrimas reprimidas e em saudades afogadas. Mais vale o que tem por dentro, não é o que dizem?!

Tudo sobrevive de algo. O que nutre a nossa nostalgia é a nossa própria mente. Nossas próprias memórias. Mais uma vez estamos passando totalmente longe do concreto, e isso torna o ambiente muito mais sutil. Vê? Podemos controlar. Ou não. Por vezes não tivemos a oportunidade de escolha daquela forma que viremos a sentir falta depois. Mas depende de nós, e só de nós mesmos, o rumo que deixaremos nossos vazios vagarem. Delimitamos o espaço. Quanto mais longe explorar, mais quente sentiremos o que contornará os nossos traços depois.

O aperto inefável no peito nos remete a indagações que durariam incansáveis por horas a fio. “Foi bom?” “Valeu à pena?” “Cresci com isso?” “Doeu mais do que pude suportar?” “Onde estará?” “Por quê?” “Vai voltar?”
Papéis, fotografias e até mesmo sons estão inertes naquele momento e é tolice crer o contrário, mas e tente convencer disso quem fala mais alto do que a razão!

Não que o agora seja ruim. Ele é encantador. Mas reviver em memórias quase obscurecidas de tudo o que já se foi provoca um deslumbre inevitável. Trazendo consigo raiva, riso, choro ou amargura, seu lado proveitoso está ali. Ainda que ofuscado.

A nostalgia é o sentimento das nossas memórias, é a saudade de algo que se foi, que não veio ou que virá. O tempo pouco modifica. O inalcançável, o inabalável, o inexplicável, o indescritível, o intocável.

Plantamos um dia, pelas mais variadas e incertas razões, e quando é que iremos colhê-la não temos como saber. Mas uma coisa é certa: o que colheremos, então, serão as lágrimas cristalizadas. O resquício de um sorriso, no cantinho curvado para cima. O orgulho de ter vencido.


Eis aqui alguns dos fatores que sou capaz de lhes contar...
Fotografias já maltratadas pelo tempo; o crepúsculo; músicas altas no fundo de uma paisagem que passa ligeira pelo vidro em que fito; as gotas da chuva quebrando no telhado; a calada do anoitecer; estiradas na cama sem propósito; insônia; pouca luz ou uma luz ofuscada; músicas lentas; filmes; livros. As três finais um pouco amplas, mas é.

domingo, 10 de agosto de 2008

Dia dos pais: alerta mental ligado!

Não entendo ao certo quem foi que teve, pela primeira vez, a idéia brilhante de tomar um dia próprio para algum cargo ou pessoa. É estranho isso. Se assim fosse, deveria existir também o dia da tia, do primo, do sobrinho... Mas vai ver os que possuem data própria são pela relevância do papel que exercem sobre a sociedade, no geral. Isso é o que deve fazer a grande diferença.

Não há só um tipo de pai, se assim posso dizer. O primeiro que quero citar e descrever é o pai biológico que é diretamente ligado a você. É o meu.
No caso de você ser um menino, é ele quem vai levar você ao estádio de futebol e te induzir a idolatrar e torcer para aquele mesmo time. Terá sido pelo seu sexo que ele tanto fez figa para que aparecesse, na primeira vez, na máquina do ultrassom. É quem irá servir como exemplo de integridade; te levará para aprender a impinar pipa na beira da praia de um dia ensolarado; te ensinará aquelas palavras feias que a mãe tanto insistirá em apagar da sua cabecinha, e acima de tudo, o único homem que existe no mundo para você até que possa responder por seus próprios atos.
Com a menina, o cuidado dobra. A aparente sobra de fraqueza e fragilidade o fazem entrar em parafuso, em meio a tantas dúvidas de como cuidar, como educar. Não é muito diferente, apenas será privada de comparecer em certos eventos como estádios de futebol (a não ser, é claro, que ela queira) e o clube com os amigos do papai. Com ela, ainda que a responsabilidade seja jogada um pouco mais para a mãe por serem de sexos semelhantes, ele poderá cuidar de dar banho, quem cuidará de te fazer rir enquanto a mãe prepara a janta, quem dará a comida na boca, fazendo aviãozinho. Te provocará até você sentir vontade de correr atrás dele, disposta e pronta a usar de toda a sua força, mas assim que mal começou... Vê que aquela toda que você reuniu é quase nula se comparada a que está te desafiando. Com um simples fechamento de pulso nos seus, ele te imobiliza. Mas vendo o brilho do desejo de brincar naqueles olhos, ele irá te jogar na cama e te fará cócegas, te morderá... O mais fascinante disso é que, com uma pequenina, o pai precisará reaprender a ser sensível, para que possa, assim, tornar aquelas mãos pesadas e grandes, em mão leves, e ternas.

Eu acho que é para isso que existem os dois, pai e mãe. Não só um pai, ou só uma mãe. Até porque, não fosse uma ação de ambos, você nem teria um corpo para sustentar. Mas não nesse sentido. Na maior parte das vezes, pai é quem precisa jogar a última palavra e agir com a razão. Mãe é mais fraca e acaba respondendo pela emoção.

Muitos pais precisam aprender a ser os dois, ou vice-versa. Nesses casos, datas simbólicas como a dos pais ou das mães, causam um vazio interno que ninguém, a não ser ele, é capaz de entender. Essa dor então precisa ser respeitada, e nem por isso pode deixar de reconhecer o esforço que a única imagem fraterna que possui, fez e está fazendo para cuidar de você da melhor forma possível.
Ou até mesmo, pais acabam recebendo filhos. Já prontos, e criados. E os filhos, recebendo "pais". São os padrastos. E aí é um desafio duplo, a criança precisa se acostumar com aquele novo homem que acaba de despencar na sua frente, e o pai precisa conquistar a confiança desse, que não irá se soltar logo tão fácil assim. Muitas crianças consideram-se sortudas e realizadas por terem ganhado pais que nunca tiveram a oportunidade de ter, e conseguem, com o tempo, ver naqueles olhos o amor de um pai de verdade que lhes foi concedido. Não é o seu sangue que corre naquelas veias, mas são as partículas do seu coração que moram no seu. E o que importa é o que sentimos, não o que está resgistrado. Importa mesmo o que impulsa nosso coração, o que reflete em nossas atitudes como gente grande, não o que a lei determinou por meio de um pedaço de papel.

Ainda sou capaz de me lembrar dos dias em que meu pai me dava banho. Me segurava com o maior cuidado e me ajeitava em seu colo, temendo sempre um toque mais brusco. Passava as mãos pelos meus cabelinhos quase brancos, e finos como só. Lavava todo o meu corpinho frágil e quase sem cor. Depois, vinha a parte de que eu mais gostava. A farra. Ainda em seu colo, brincávamos de acumular água na barriga, como uma piscininha. A água caía ligeira ao nosso lado, mas não parecia notar. Mordia os brinquedinhos de borracha, enchia de água os potes já vazios de shampoo. Não havia malícia alguma, isso torna tudo ainda mais belo.
Até mesmo as brincadeiras onde dizia que ia matar o menino que tinha apenas conversado comigo, me faziam sorrir.

Existiram e existirão as vezes que você terá vontade de pular no pescoço dele e espernear, chorar e se descabelar até que ele volte atrás na decisão que acaba de tomar. Você vai sentir raiva, e ela triplicará quando ouvir um "estamos fazendo isso pro seu bem." Não é possível que ele ache isso. Ele só pode estar brincando comigo. Mais tarde você compreenderá, e mesmo que esse processo aconteça até em outra fase da sua vida, a gratidão virá. Baterá na sua porta. E você enxergará mais um feito para encher a caixinha.

Sorte tem quem é capaz de ver na figura paterna um símbolo de ternura e amizade. Mais do que só um alguém que reprimirá qualquer atitude sua. Quem não teme subir nos ombros daquele que tem a capa presa em suas costas. A capa de um super-herói. Do seu próprio herói. Aquele que não estrelou nenhum filme de sucesso, mas que faz parte do seu que construiu a sua história até hoje. Que conduziu seus passos e trilhou seu caminho.

Um pai, acima da própria segurança, zela pela segurança daquele que ajudou a colocar no mundo. Seria capaz de entregar a própria vida se isso mantesse sã e salvo seu filho. A quem você confiaria atravessar uma avenida movimentada se tivesse os olhos vendados e quem o guiasse fosse ele.
Muitas vezes somos nós mesmos quem temos que fazer a diferença. Afiar os olhos e ver, por trás daquela aparência durona, uma pessoa de coração mole e cheia de carinho pronto para dar. Resgatar isso. Trazer para perto de você, para o ambiente. E a partir disso, quebrar os tabus sociais. Não é só mãe que tem que ouvir, não é só mãe que tem que abraçar.

Pai é muito mais do que sinônimo de força, é quem chorou, raras vezes, por culpa inteiramente sua.

Por fim, quero dizer que eu amo você, pai, e um obrigada não é nem metade do que exprime o que sinto. Nada o faz.

"Alguém que te faz sorrir, alguém que vai te abraçar quando a escuridão cair, te impedindo de enxergar..."

sábado, 9 de agosto de 2008

Universos paralelos.

Para lhe ser franca, nunca tinha parado para pensar no que acontecia do outro lado do mundo, enquanto o dia amanhecia por aqui.

Oh, é claro que já tinha me questionado como seria viver por lá, observado como seria legal viver em meio a uma cultura completamente distinta e com diversas inovações. Também uma tecnologia consideravelmente bem desenvolvida. Mas não parado efetivamente, nem gastado as energias dos meus neurônios com pensamentos mais fundos sobre o assunto. Contudo, de uns tempos pra cá, mais precisamente lá por meados de Fevereiro, eu ganhei um motivo para começar a dar mais importância ao que acontecia na outra face do mundo, simultaneamente ao que eu vivia no lado de cá.

É estranho pensar que enquanto aqui o sol nasce, lá o sol se põe. Estranho considerar que quem mora lá já viveu as horas do dia que ainda não chegaram aqui. Estranho também pensar que estou tão próxima de alguém que está a milhas daqui.

Mas ainda assim, o mais estranho de tudo isso são as idéias que pude abrigar. Você as verá.

Posso tentar exprimir, mas não garanto nada.

O que sinto, na verdade, é como se... Se tivesse tido o coração fragmentado. Isso. Em pedacinhos doces. Depois disso, algumas partículas dele escapassem do meu controle e tomassem seu próprio rumo, livres, silenciosas, e vagassem por essa imensidão do mundo afora... Pegando carona nas moléculas do ar. Se deparando, em seu caminho, com toda a delicadeza das borboletas, a doçura das canções advindas dos pássaros; as cores leves do arco-íris e a pureza do azul do céu. E mais do que isso, também absorvendo um pouco de cada uma dessas. Junto, é claro, não preciso nem citar, levou consigo o amor que em meu coração reside. Foi então, que, depois desse longo percurso, chegaram, intactas e ainda melhores e mais leves, prontas para uma troca. Elas entrariam ali naquele coração, dando espaço para algumas que saíam dali tomarem o caminho contrário.

E é por essa troca que eu te sinto tão em mim. Parte de você está, como pôde perceber.

A distância por vezes fere, e eu a sinto corroer pedaços internos de mim quando já tenho meu estado de espírito pouco fortalecido. Mas viajar por suas lembranças que guardo comigo me fazem me recompôr. E isso é suficiente.

Pouco me importa se tudo (quase tudo) o que tenho são palavras. Digitadas. Expressadas, muitas vezes, sem valor ou emoção alguma. E mesmo que eu não consiga captar o brilho de seus olhos quando as escreve para mim, eu posso sentir que não ocultam o mínimo de verdade. Através da sutileza que sua voz traz, e que soa como uma canção de ninar para mim, eu sou capaz de sentir a emoção. Aquela que une numa mesma redoma a vontade, o carinho, a proteção. O desejo de romper cada sensação superficial dessas e ter em mãos o poder de inspirar o aroma. O cheiro. Do abraço. Da felicidade. Da pele com cada um de seus pêlos eretos. "Às vezes se eu me distraio, se não me vigio um instante, me transporto pra perto de você..." Eu tenho um, e o melhor dos motivos para me preocupar com cada passo que seus pés conduzem você nesse universo paralelo. Acredito nisso porque a segurança que você e eu depositamos e transmitimos têm força o suficiente para suprir algumas vontades que não temos condições de saciar por agora. Eu disse por agora.

Não é nenhum tipo de romance. É apenas o sentimento de amizade que não carrega malvadeza alguma.

"... Cedo ou tarde a gente vai se encontrar, tenho certeza [...] E o que é nosso está guardado em mim e em você, e apenas isso basta. Me sinto só, mas sei que não estou, pois levo você no pensamento."
"A melhor parte de mim leva o meu caminho até você, isso é o que me deixa mais forte, me faz tão bem..."
"I hear it in your voice, we're miles away; You're not afraid to tell me, miles away... I guess we're at our best when we're miles away."
"Don't you worry about the distance, I'm right here if you get lonely."

Só enquanto precisar de mim, Lu Shima.

sexta-feira, 8 de agosto de 2008

Olhe dentro dos meus olhos; e verá.

Uma coisa que aprendi por essa trilha da vida adentro, dentre muitas, foi a olhar nos olhos.
Ainda posso me lembrar do exato momento em que isso aconteceu. Ele reclamara pois eu não conseguia fitá-los diretamente, e então segurara meu queixo e me dizera para que olhasse nos olhos dele; assim seria mais seguro. Obedeci, com uma certa cautela, e ele sorrira de volta para mim, assim vi que podia fazer aquilo. Sem hesitar, agora.

Mas, de alguma forma, lá dentro de mim, uma voz me alerta que encarar certas pessoas nos olhos me desconcertam numa escala considerável. Isso acontece quando aquele par de olhos penetra os meus sem medo algum, quase que querendo invadí-los. E eu já notei que se me entretenho demais neles, chego até a perder a minha atenção no que estou ouvindo a pessoa falar, porque os meus olhos instintivamente pedem por aqueles olhos, e eu sinto como se a partir daquele momento, eles se comunicassem, e não mais nossas vozes. Ou eles, e a minha mente. Não tenho certeza. Porque eu inicio uma série de pensamentos, um seguido do outro, ao fitá-los de tal modo. Mas quando volto ao mundo real, ainda tento enganchar com as últimas palavras que foram ditas, e como não é nada inédito na minha rotina diária, assinto com a cabeça e sorrio, do tipo "uhm, entendi, hein."

Muita gente diz que os olhos falam, que os olhos são capazes de transmitir emoções e até mesmo palavras, sem ser necessário abrir a boca. Com o tempo eu fui percebendo isso, e consigo enxergar as vantagens. É possível, com jeitinho, entender se o que aquele brilho está tentando nos passar é sincero. Se é verdadeiro. E muitas vezes eles até revelam respostas. O contra que já pude perceber nesse ato de fitar o olhar é quando tudo o que vemos, é umidade. Eles vão se enchendo mais a cada jato de palavras que aquela pessoa solta, até o ponto em que não conseguem mais suportar, e então elas caem. Descem ligeiras. Contornando cada traço. As lágrimas. Aqueles olhinhos são baixos, são fundos... E então em grande parte das vezes o que você faz é puxá-la para o seu peito, acomodando aquela cabeça, numa tentativa que mescla a vontade de largar aqueles olhos expressivos e tentar acalmar. Ou se não faz isso, porque não pode, não quer ou a tua razão te diz para não fazer, sente ao menos vontade.

A cor dos olhos são outra coisa que nos chamam a atenção. Principalmente quando são azuis ou verdes, até mesmo os dois misturados, um de cada cor, cinzas... Ou até mesmo aqueles negros. Bem negros. Despertam até inveja nas pessoas, e sempre ouvem um "oh, meu deus, como seus olhos são lindos!" Esses são capazes de filtrarem ainda mais os nossos.

Mas de uma forma geral, me sinto feliz por tê-lo aprendido, às vezes invadir o íntimo inconsciente que aquelas faíscas revelam entregam um alguém.

A não ser que ela seja muito indigna de admiração a ponto de a verdade estar tão oculta que consegue romper até essa barreira.
Aí já é outra história.

quinta-feira, 7 de agosto de 2008

B-day.

Aniversário é uma data especial. Interessante, eu diria. Você pensar que comemora e ganha presentes num dia que, há anos atrás, você estava saindo do útero de sua mãe. Se descolando da placenta. Uh, adoro pensar nisso.
E mesmo que a primeira coisa que você tenha feito "no seu primeiro aniversário" tenha sido chorar, era pelo simples fato de ainda não ter se acostumado com o mundo frio ali de fora que agora estava prestes a te engolir, aquela criaturinha tão frágil, mas não demoraria muito. E logo, nos próximos, ou pelo menos até você se entender por gente, você teria motivos pra sorrir. Garanto.
Tem muita gente que não gosta, ainda assim... Eu, particularmente, gosto muito. Não sei se é porque adoro ser paparicada de cá e de lá e de me sentir o centro das atenções, mas eu acordo sempre animada no dia do meu aniversário. Adoro ganhar abraços logo ao despertar, ou até mesmo quando chega a meia-noite, e ouvir aqueles típicos "continue sendo assim..." porque eu sinto que sou um orgulho, e isso me satisfaz. Ouço palavras carinhosas, aquelas que eu tanto gosto, como "princesa", "meu amor", e coisa e tal. E sinto uma onda de desânimo invadir minhas entranhas (sim, eu sinto. E sim, eu absolutamente adoro a palavra entranhas), se não saio de casa e não vou pelo menos a algum lugar com algumas amigas. Já fico todos os dias em casa, no dia do meu aniversário quero sair, ora essa! Não quero sentir essa data passar batida, eu preciso ganhar vários abraços e beijos. Até umas derrubadas no chão, por ventura, também, por que não!?

Uma coisa que nunca me agradou foi o fato de o meu aniversário ser durante as férias de Inverno. Eu sempre quis uma recepção calorosa dos meus colegas de turma, ou até mesmo um daqueles cantos de parabéns que te fazem ter vontade de cavar num buraco no chão e entrar ali mesmo. Nunca tive isso. Meu aniversário é dia 5 de Julho, normalmente a primeira semana de férias. Só no novo colégio, agora, que a semana que foi até o dia 4 era de Olimpíadas, e então, no sábado, era a Festa JuLina. Pude encontrar algumas amigas ainda assim, foi melhor do que nos outros anos. Ao menos no quesito "colégio e colegas."

Mas não é à toa que resolvi puxar esse assunto no dia de hoje. Fiz isso porque hoje é aniversário de uma amiga minha, da Lou. Dia 07 de Agosto... E eu queria desejar parabéns para ela por aqui também, lembrá-la o quanto é estimada por mim. Não que eu precise do dia em que você completa mais um ano de sua vida para dizer isso, mas é uma mãozinha na roda. Uma parcela do meu presentinho já mandei hoje à tarde, mas o que vale mesmo vou poder dar só daqui a pouco mais de um mês. Eu serei seu presente, estamos combinadas assim? Amarro até um laço vermelho, se você quiser! Me sinto feliz por poder passar esse aniversário com você, poder ouvir a sua voz e te dizer assim, de uma forma mais próxima, tudo o que desejo a você. Já disse, e repito, que caso ouça sua voz chamar por meu nome, eu não irei negá-la de forma alguma. Estará estendida. E, do fundo do meu coração, eu quero dizer que mal posso esperar para encontrá-la, e ser embalada em uma de suas canções. "Eu não vejo a hora de te ver sorrir..."

Espera, não demoro.

quarta-feira, 6 de agosto de 2008

Foi então que eu vi.

E então eu vi. Vi pela primeira vez.

A flor vermelha.

Ela combinava com cada traço que a cercava, ela contrastava com o preto. Com o verde.

Era tão bonito; tão fascinante.

O sorriso aparentemente tímido me deixa em dúvida se o brilho é tão cegante de perto quando parece de longe. Com o passar dos dias tudo o que eu tinha eram olhares; trocas expressivas de olhares, devo dizer. Mais uma vez fico na dúvida se olhou só porque percebeu que eu estava fitando-a disfarçadamente. Será? Ou o “disfarçadamente” foi carinho meu?

Ela sorriu pra mim. Sorriu tímida; gesticulando um “oi” com os lábios. Eu estremeci. Pisquei os olhos para me certificar de que não estava ficando louca. Não, eu não estava. Ou achava que não. Cada pêlo no meu braço arrepiou, segundos depois, quando me dei por conta do que tinha acabado de acontecer. Por que tinha feito isso, se nem meu convite tinha visto ainda? Talvez tenha visto, mas não dado resposta. Não sei ao certo.

Por uma fração de segundo desejei ter o olfato algumas vezes mais aguçado. Desejei ser algo diferente de um ser humano, um ser fora do senso normal. Um vampiro, algo próximo. Quando, por termos um sentido a mais ou a menos, e um deles se aguça. Mas ouvi um rastro de sua voz. É doce. O meu coração bateu forte. Bateu forte como nunca antes. Levou-me a parar, pensar e acreditar que era por conta do vai-e-volta que eu tinha acabado de fazer, mas medi a freqüência da minha respiração e notei que ela estava calma. Isso não aliviou. Só conseguiu fazê-lo bater mais forte ainda. Ele pulsava em cada ponto do meu corpo da cintura pra cima, eu sentia pulsar minhas em minhas têmporas. Eu não consigo entender o que é isso, é um fenômeno inédito.

Nota: meu estômago ainda dá voltas toda vez que vejo.

Foi mais um dia em que o seu brilho me atingiu. Exatamente da mesma maneira que antes. Mas não foi só um “oi”. Teve um “tchau” também. Por um momento pensei que ela iria deixar a construção para trás, voltando ao seu campo. Mas ela se virou. Sorriu pra mim, dessa vez falando mais alto. Eu correspondi. Eu paralisei.

Em meus devaneios uma convicção faço questão de manter intocável: vou encontra-lá amanhã. Mais uma vez. Com todo seu brilho. Isso me inspira. E se não vir, verei depois de manhã, ou depois. Mas voltarei a vê-la, no dia em que as ondas de vergonha frearem e meus pés me levarem flutuando até ela. Nesse dia eu vou sorrir em cada ponto de mim, o meu sangue vai ferver, a satisfação vai me invadir. Vou inspirar seu perfume. Da rosa vermelha.

Só espero não deixar transparecer nenhuma dessas sensações.

terça-feira, 5 de agosto de 2008

São meus devaneios...

Sempre tive um instinto natural que me induzia, ainda mais com minhas leituras, a escrever em linhas na minha cabeça.
Talvez seja de família, minha mãe adora ler e meu irmão puxou isso dela... Sendo assim, "eu nasci" adorando ler também. De início, lia só os livros que a escola nos fazia ler. Enquanto todos achavam um saco, e só liam por obrigação, eu gostava. E depois comecei a ler a série do Harry Potter. Devo ter começado a ler o livro 1 umas quatrocentas vezes, mas em uma delas, dei corda. E aí foi. Foi só o começo.
Ouço muita música também e um mesmo CD fica no 'reprodução' do meu celular (que uso como mp3) por um longo tempo. Os versos dessas músicas junto aos mistérios e a forma toda especial de escrita dos livros que leio, me remetem a vários pensamentos. Monto versos, escrevo estrofes... Tudo aqui dentro da minha cachola. Têm vezes que me disperso por dois segundos e elas já sumiram. Já se foram. Por isso queria ter sempre uma máquina de escrever em minha bolsa para ajeitar em meu colo, para assim que pensar, já ir gravando. Uma que eu pudesse tirar em qualquer lugar, a qualquer momento. Como mais um de meus fiéis escudeiros.

Enfim, foi por isso que eu decidi, depois de um bom tempo, criar um blog pra mim. Não tenho esperança de que muita gente leia isso aqui, mas talvez nem seja o que eu quero. Talvez só queira fazer dele a minha máquina de escrever que citei ali em cima. E isso é bom para mim. Isso basta.

São meus devaneios, coisas minhas e nada mais... Coisas minhas, sem importância e que você talvez nem queira ler.


"Eu tento te esquecer, mas tudo o que eu escrevo é sobre você (...)
Preciso de você... Preciso de você esta noite."
(Nx Zero - Cartas Pra Você)