sexta-feira, 29 de agosto de 2008

Refúgio

Um mp4, uma música, um livro, uma revista, um fechar de olhos, um gramado, um quarto trancado, um diário, ou, por que não?, o seu próprio silêncio. Dentre os possíveis, sou mais esse. Talvez seja por ele abrigar todos os outros. Eu escolho o meu silêncio como o meu refúgio porque ele não exige de mim explicações. Acolhe-me e me deixa. Não reprime uma lágrima, ou um sorriso. Ou até mesmo um grito. Sinto-me num mundo delimitado, presa, e ao mesmo tempo completamente livre. Presa por tentar e não conseguir sair, ainda que aquela seja a minha fuga, ela me leva diretamente a uma prisão de minhas próprias memórias. Livre, por poder exprimir as minhas angústias.

É só porque prefiro o direito de escolher a minha prisão. E entre o que vejo pelo canto embaçado dos olhos e o meu próprio, fico com o segundo.

As razões pelas quais o refúgio passa a ser perseguido são inúmeras. Por vezes a maneira encontrada é tão baixa por conta dos distúrbios das idéias e da busca desenfreada por correr logo daquela multidão de faces tortas que acaba por não ajudar em nada. Pelo contrário: as atitudes que porta são tão deploráveis que seus olhos entregam um pedido de socorro ensurdecedor.
Amores platônicos ou não recíprocos têm voz própria, e essa berra por uma fuga, em um cantinho que as lágrimas possam ser revertidas em pérolas.

No fim, você se vê rico.

A parte pensante cabível a mim está bloqueada agora, por alguns motivos que a minha voz opta por não proferir. E isso me faz ter mais vontade de correr para o fundo do meu beco escuro, onde os latões não têm lixo, não estão derrubados e nem cheiram mal. Mas sim bichos de pelúcia com o meu cheiro.

Não que o mundo esteja de forma que nós, mortais, nos encontramos prestes a tocar o arco-íris com a sola dos sapatos. Quase isso. Mas ainda assim, é só que a platéia que lhe assiste não lhe aplaude, e nem você conseguiu ainda identificar um fã que tenha o mesmo jeito de interpretar que você tem. E ainda que tivesse um, dois ou mais, um pára-quedas sempre pousa arrancando um risquinho de grama ao te fitar, trazendo consigo o motivo que quase sobra para você tatear, às cegas, na busca pelas quatro paredes com cores em tons bebê, o cheiro suave, o som a seu gosto e os pensamentos correndo livres. Com o coração na mão, a escorrer por entre os dedos separados milimetricamente e estáticos. A seu gosto, com a quietude que vem como uma manta de lã em uma noite gelada. Aquele que dê colo. Sem mais palavras.

Sem mais perguntas.

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