Não entendo ao certo quem foi que teve, pela primeira vez, a idéia brilhante de tomar um dia próprio para algum cargo ou pessoa. É estranho isso. Se assim fosse, deveria existir também o dia da tia, do primo, do sobrinho... Mas vai ver os que possuem data própria são pela relevância do papel que exercem sobre a sociedade, no geral. Isso é o que deve fazer a grande diferença.
Não há só um tipo de pai, se assim posso dizer. O primeiro que quero citar e descrever é o pai biológico que é diretamente ligado a você. É o meu.
No caso de você ser um menino, é ele quem vai levar você ao estádio de futebol e te induzir a idolatrar e torcer para aquele mesmo time. Terá sido pelo seu sexo que ele tanto fez figa para que aparecesse, na primeira vez, na máquina do ultrassom. É quem irá servir como exemplo de integridade; te levará para aprender a impinar pipa na beira da praia de um dia ensolarado; te ensinará aquelas palavras feias que a mãe tanto insistirá em apagar da sua cabecinha, e acima de tudo, o único homem que existe no mundo para você até que possa responder por seus próprios atos.
Com a menina, o cuidado dobra. A aparente sobra de fraqueza e fragilidade o fazem entrar em parafuso, em meio a tantas dúvidas de como cuidar, como educar. Não é muito diferente, apenas será privada de comparecer em certos eventos como estádios de futebol (a não ser, é claro, que ela queira) e o clube com os amigos do papai. Com ela, ainda que a responsabilidade seja jogada um pouco mais para a mãe por serem de sexos semelhantes, ele poderá cuidar de dar banho, quem cuidará de te fazer rir enquanto a mãe prepara a janta, quem dará a comida na boca, fazendo aviãozinho. Te provocará até você sentir vontade de correr atrás dele, disposta e pronta a usar de toda a sua força, mas assim que mal começou... Vê que aquela toda que você reuniu é quase nula se comparada a que está te desafiando. Com um simples fechamento de pulso nos seus, ele te imobiliza. Mas vendo o brilho do desejo de brincar naqueles olhos, ele irá te jogar na cama e te fará cócegas, te morderá... O mais fascinante disso é que, com uma pequenina, o pai precisará reaprender a ser sensível, para que possa, assim, tornar aquelas mãos pesadas e grandes, em mão leves, e ternas.
Eu acho que é para isso que existem os dois, pai e mãe. Não só um pai, ou só uma mãe. Até porque, não fosse uma ação de ambos, você nem teria um corpo para sustentar. Mas não nesse sentido. Na maior parte das vezes, pai é quem precisa jogar a última palavra e agir com a razão. Mãe é mais fraca e acaba respondendo pela emoção.
Muitos pais precisam aprender a ser os dois, ou vice-versa. Nesses casos, datas simbólicas como a dos pais ou das mães, causam um vazio interno que ninguém, a não ser ele, é capaz de entender. Essa dor então precisa ser respeitada, e nem por isso pode deixar de reconhecer o esforço que a única imagem fraterna que possui, fez e está fazendo para cuidar de você da melhor forma possível.
Ou até mesmo, pais acabam recebendo filhos. Já prontos, e criados. E os filhos, recebendo "pais". São os padrastos. E aí é um desafio duplo, a criança precisa se acostumar com aquele novo homem que acaba de despencar na sua frente, e o pai precisa conquistar a confiança desse, que não irá se soltar logo tão fácil assim. Muitas crianças consideram-se sortudas e realizadas por terem ganhado pais que nunca tiveram a oportunidade de ter, e conseguem, com o tempo, ver naqueles olhos o amor de um pai de verdade que lhes foi concedido. Não é o seu sangue que corre naquelas veias, mas são as partículas do seu coração que moram no seu. E o que importa é o que sentimos, não o que está resgistrado. Importa mesmo o que impulsa nosso coração, o que reflete em nossas atitudes como gente grande, não o que a lei determinou por meio de um pedaço de papel.
Ainda sou capaz de me lembrar dos dias em que meu pai me dava banho. Me segurava com o maior cuidado e me ajeitava em seu colo, temendo sempre um toque mais brusco. Passava as mãos pelos meus cabelinhos quase brancos, e finos como só. Lavava todo o meu corpinho frágil e quase sem cor. Depois, vinha a parte de que eu mais gostava. A farra. Ainda em seu colo, brincávamos de acumular água na barriga, como uma piscininha. A água caía ligeira ao nosso lado, mas não parecia notar. Mordia os brinquedinhos de borracha, enchia de água os potes já vazios de shampoo. Não havia malícia alguma, isso torna tudo ainda mais belo.
Até mesmo as brincadeiras onde dizia que ia matar o menino que tinha apenas conversado comigo, me faziam sorrir.
Existiram e existirão as vezes que você terá vontade de pular no pescoço dele e espernear, chorar e se descabelar até que ele volte atrás na decisão que acaba de tomar. Você vai sentir raiva, e ela triplicará quando ouvir um "estamos fazendo isso pro seu bem." Não é possível que ele ache isso. Ele só pode estar brincando comigo. Mais tarde você compreenderá, e mesmo que esse processo aconteça até em outra fase da sua vida, a gratidão virá. Baterá na sua porta. E você enxergará mais um feito para encher a caixinha.
Sorte tem quem é capaz de ver na figura paterna um símbolo de ternura e amizade. Mais do que só um alguém que reprimirá qualquer atitude sua. Quem não teme subir nos ombros daquele que tem a capa presa em suas costas. A capa de um super-herói. Do seu próprio herói. Aquele que não estrelou nenhum filme de sucesso, mas que faz parte do seu que construiu a sua história até hoje. Que conduziu seus passos e trilhou seu caminho.
Um pai, acima da própria segurança, zela pela segurança daquele que ajudou a colocar no mundo. Seria capaz de entregar a própria vida se isso mantesse sã e salvo seu filho. A quem você confiaria atravessar uma avenida movimentada se tivesse os olhos vendados e quem o guiasse fosse ele.
Muitas vezes somos nós mesmos quem temos que fazer a diferença. Afiar os olhos e ver, por trás daquela aparência durona, uma pessoa de coração mole e cheia de carinho pronto para dar. Resgatar isso. Trazer para perto de você, para o ambiente. E a partir disso, quebrar os tabus sociais. Não é só mãe que tem que ouvir, não é só mãe que tem que abraçar.
Pai é muito mais do que sinônimo de força, é quem chorou, raras vezes, por culpa inteiramente sua.
Por fim, quero dizer que eu amo você, pai, e um obrigada não é nem metade do que exprime o que sinto. Nada o faz.
"Alguém que te faz sorrir, alguém que vai te abraçar quando a escuridão cair, te impedindo de enxergar..."
Assinar:
Postar comentários (Atom)

2 comentários:
Eu nunca tive um pai. Nem biológico, nem adotivo, nem postiço. Mas eu imagino como seja, e só posso sorrir, meu anjo. Que lindo texto, como sempre.
Oi Gi! adorei o texto!
:D
beijos, adoro você!
;)
Postar um comentário