Ontem não pude postar, mas foi aniversário do meu irmão. E então, vou fazer isso agora.
Irmão é algo engraçado. Porque querendo ou não, ele é parte de nós. E querendo ou não, também, é uma relação forçada. Quero dizer, se ele não fosse meu irmão (sei, se ele não fosse ELE, nesse corpo que sustenta, nem existiria, mas pensa comigo) eu poderia nem conhecê-lo. Só que ele vive debaixo do mesmo teto que eu desde que eu dei boas-vindas ao mundo, e ele saiu para este mesmo exatamente do mesmo local que eu. Nós dois somos um resultado duplo de uma mesma expressão. Um mesmo cálculo, uma mesma soma. Uma que veio inesperada, e a outra programada, para uns cinco anos depois.
Não somos capazes de escolher a dedo quem queremos que seja nosso irmão. E se você for pensar, isso é ótimo. Mesmo com todas as desavenças. E é justamente aí que está o motivo. Por exemplo, se você tem um amigo que conhece há tempos, já pode ter pensado em como seria legal se ele fosse seu irmão. Mas se fosse, esse vínculo de amizade certamente não seria tão resistente como é. As brigas, com o tempo, a desgastariam. E mesmo que não, sempre tem uma cutucada daqui e um pontapé de lá. Nada grave, mas algo que possivelmente complicaria a leva de sentimentos.
Sinceramente não acho que um namorado seja metade de você. Nem um marido, até. Essas coisas muitos dizem, e é apenas um eufemismo e algo que encurte tantas coisas a serem ditas, mas não é uma verdade. Não ao pé da letra. O meu irmão é metade de mim, e isso ele é mesmo. É, também, algo que encho a boca para contar.
Vendo, hoje, as coisas que eu dizia a você há uns anos atrás, parecem até inacreditáveis. Não, nada de cabuloso. Por isso mesmo. Eu dizia que o amava, que era o melhor irmão do mundo... Entretanto, o que me lembro dos anos que se passaram são pequenas, vagas e falhadas lembranças. Isso só prova que eu proferira tudo, sempre, com a mais pura sinceridade, a verdade intocável de uma criança que pouco sabe da vida, e que a própria base está a palmos de distância. Talvez num mundo completamente oposto e bombardeado de informações a todo instante, mas que via com clareza o pequeno mundo que em volta de sua irmã girava. Como uma roda-gigante, ou um carrossel, acompanhado de uma serena canção que acalma.
As nossas brincadeiras de infância hoje te envergonham e te constrangem. A mim não. E se pudesse, as repetiria, reviveria e reinventaria cada uma delas. Com você; e por você. Nada me causava aquela sofrida dorzinha no pâncreas e por vezes até um xixi na calça como as suas palhaçadas. Eu tinha o meu próprio circo em casa, não precisava visitar qualquer um que chegasse à cidade. E o meu artista era o melhor de todos, exibindo-se para uma só platéia, aquela que era a sua maior e mais fiel fã. Talvez nem tivesse tanta graça assim, mas você estava fazendo para mim, eu era a bola do seu futebol. E aí é que está o ápice da história. Também, o máximo é que as apresentações continuam até hoje.
As maluquices variavam desde usar-se de fantasias improvisadas, nomes bizarros e um tempinho antes do café da tarde, (agora a platéia aumentara: avó e bisavó), até corridas segurando-se firme nas costas, com aquelas vozes brincalhonas que só você sabia fazer.
Tudo o que sou capaz de lembrar-me de minha infância, logo avisto o seu rosto estampado ao lado do meu. Colorido. Completo. E isso me faz indagar como seria se o seu lugar fosse um lugar vazio. Minhas recordações também seriam. O meu álbum de fotos estaria incompleto.
Você me estendeu o lápis de cor amarelo quando a última figura para se pintar no meu desenho era um sol. E se por ventura, tudo o que faltasse para terminar de colorir o seu fosse uma cor raríssima, eu iria buscá-la para você. Iria buscar a sua fruta preferida, no topo da mais alta árvore. Alcançaria, carregando comigo toda a força que você fez florescer dentro de mim, e voltaria com os cotovelos calejados e os olhos fundos nas olheiras, mas um brilho encheria os meus olhos. O brilho da realização de fazer concretizar um sonho seu.
Você é o laço que eu reataria quantas vezes fosse preciso, caso se soltasse, mesmo por frações de segundos. Eu o daria de volta, medindo cada lado, igualando cada borda. Faria isso mil vezes. E aquele, também, que eu sinto fortalecer-se dentro de mim a cada dia que passa, a cada dia que eu me sinto mais em você. Como o cadarço do tênis que se solta e, quando refazemos, é com mais firmeza. É o laço que tempo nenhum corrói. Laço que ferida cura, lágrima afaga e coração aquieta.
Podemos não tomar muita noção ainda do quanto iremos precisar um do outro. Ou digo isso por você, não sei ao certo. Mas o tempo vai dando conta de tornar visível para nós coisas assim. Temos a prova agora. Damos-nos muito melhor do que antes. Eu amadureci, e você viu além, passou a enxergar em mim uma amiga, e não só uma irmã mais nova que torra a paciência.
Eu te conheço como ninguém. O mesmo sangue corre em nossas veias. Todos os seus segredos que possuo em mente estarão muito bem guardados, num cantinho que separei só para eles. Trancafiados a sete chaves. Não tema contar alguma coisa para mim, eu sou sua irmã. E se tem coisa que não divido com você, e não é por conta da sua tiração de sarro sempre que eu quero dizer alguma coisa, é por algum outro bom motivo.
Feliz aniversário mais uma vez, você merece o melhor nessa vida, por tudo o que já passou. Eu te aceito assim como você é. E faço isso porque sei que faria o mesmo por mim.
Diria Aristóteles, as contendas e ódios mais cruéis são os dos irmãos, porque os que muito se amam muito se aborrecem. Isso esclarece alguma coisa, maninho?

4 comentários:
Eu escrevi um comentário enorme, e bastante complexo, mas tive um pequeno problema com... o mouse. Então vou resumir, tá? Eu admiro muito a relação de vocês dois, e torço pra que ela cresça cada vez mais nessa base sincera e companheira. Porque você está longe de ser a irmã mais nova que só serve pra encher. Você e seu irmão são as vigas desse relacionamento, pequena. E ambos são fortes. Não conheço seu irmão, mas, pra você dizer tudo isso dele... É, ele é digno de admiração. Parabéns pelo texto, e pro seu irmão.
nossa, maravishoso!
Gi, você escreve muito bem!
Parabéns pelo texto!
;)
beijão querida!
;*
...e o mundo das letras acaba de ganhar uma SENHORA escritora...Parabéns!!
Ana Paula
deixa eu "rasgar uma seda" aqui: essas criaturas, uma linda que elogia, escreve com tanto amor e cheia de lembranças boas de outra tão linda quanto, que por sua vez escreve também muito bem, sairam de dentro de mim, fruto do jovem amor de um casal eternamente apaixonado.
filha, você me surpreende a cada dia que passa.
te amo muitíssimo.
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