Com a música, eu sinto como se encontrasse o meu caminho de volta para casa. Nelas eu procuro as palavras que me faltam (elas falam por mim), o esconderijo que parece perfeito, a direção a seguir, as frutas a colher. As melodias que me cercam e embalam, como a um bebê. Isso tudo se torna ainda mais claro se quando sentido na pele. Digo, num show.
Eu sinto cada batida, cada nota, grave e agudo penetrar em mim. Os ouvidos funcionam só como receptores. Sua participação é pífia, se analisado o todo. No fim das contas, quem acaba mesmo por sentir são os meus pulmões, que berram, naquela histeria que pareia no ar. O meu coração, que pulsa freneticamente a cada pulo que dou, a cada vez que a emoção platônica toca mais fundo. Eu era quase capaz de ver as notas musicais saindo daquele palco, como pedaços fragmentados da emoção dos quatro, e pousando em cada um daqueles corpos que se sacodiam, numa intencional tentativa de se libertar. Aquele parece o lugar ideal, sem mais delongas.
É tudo uma loucura. Platônico, inventado, obsessivo. Mas eu pouco me importo. Tenho total consciência de que eles nem sonham com a minha existência, mas a minha voz ajudou a compor aquele coro uníssono do qual eles se orgulharam, aquela multidão que cantava a plenos pulmões, aquelas mãos erguidas que acompanhavam tudo, aqueles gritos receptivos e calorosos.
Embalada por tais canções eu aceitaria o apocalipse como um fenômeno natural sem avisos prévios. O mundo todo iria embora. Embora para sempre. O mundo todo, e, ao mesmo tempo, nada.
Pois assim eu sinto quando os versos sob ritmos tomam conta de mim.
Assinar:
Postar comentários (Atom)

Nenhum comentário:
Postar um comentário