quarta-feira, 1 de outubro de 2008

Assola a minha razão

Temer, ter terror, recear.
Eu tenho medo de muitas coisas. E não vejo o menor problema em admitir isso.
Algumas físicas, outras não.

Temo os meus piores pesadelos, temo os meus melhores sonhos. Temo a fúria enclausurada nas vestes sufocadas de alguns.
Temo a mim.
Isso é não por outro motivo se não porque me descubro a cada cascalho que tropeço. A cada gota que estala na minha vidraça. Esse medo é, talvez, o melhor dos medos. Pois teme o desconhecido. E não há nada melhor do que descobrir algo novo em você, ou desmanchar um temor do único modo aparente: encarando-o.

Sinto medo de encontrar-me no vazio que me habita, dos olhares que me atravessam e do que eles possam ver. Tenho medo de que a minha transparência se clareie a cada crepúsculo que chega, até que encontre um ponto onde eu perca todos os meus poderes de ocultar.
Seja como for, o meu medo me compõe, logo ao lado dos meus sentimentos. O meu medo me dá garras.

Sinto medo de me sentir feliz demais. É como se não merecesse tanto, e logo quisessem arrancar de mim um pouco dessa alegria. É muito provável que um dia, talvez breve, eu me sinta mais feliz do que um dia que me vi. Até porque, em inúmeras das vezes, a minha aparente felicidade não é nada se não uma capa que eu visto por medo (sim, mais uma vez) do que o transparecer da minha tristeza possa acarretar.

Tenho medo de que arranquem essa máscara que me sufoca e impregna, torna minha face disforme, empacota os meus sentimentos e rouba a minha verdade. Medo de que tudo desmorone sem que eu tenha provado de todos os venenos, de todas as poções mágicas e de todos os abraços. Medo de que o meu diferente se torne igual.

De todos os meus medos, talvez o que eu menos tema seja o de temer. Quero sentir medo. Quero me sentir humana. Quero me sentir mais viva a cada vez que o ar subir. Esbarrando-se na adrenalina que se expande por todo o meu corpo, fazendo o meu sangue borbulhar e o meu coração falar alto. Até o ponto em que se torna tudo o que eu ouço.
E me ensurdece.

2 comentários:

Luiza disse...
Este comentário foi removido pelo autor.
Luiza disse...

Segundo Drummond:
"O medo, com sua física,
tanto produz: carcereiros,
edifícios, escritores,
este poema; outras vidas."
E tenho a ligeira impressao de que ele acertou ao mecionar escritores ;)