sábado, 29 de novembro de 2008

O tempo passa. Mesmo quando isso parece impossível. Mesmo quando cada batida do ponteiro dos segundos dói como o sangue pulsando sobre um hematoma. Passa de modo inconstante, com guinadas estranhas e calmarias arrastadas, mas passa até pra mim.
E tudo o que eu ainda quero saber é porque teve que ser só um.

Um beijo. Foi tudo o que eu tive. Um só beijo. Uns minutos. Algumas pessoas têm a vida toda para sugar o doce dos lábios de seu companheiro, e eu tive uma única chance de me apoderar ao máximo do sabor dos seus.

Uma praga. Assim eu o sinto dentro de mim. Como uma praga que tivesse se estabelecido entre os meus ossos e sobrevivesse às minhas custas. À custa da minha tristeza. Quieta, quase posso ouvir as suas garras roçando as feridas do meu coração.
O seu alimento é o meu sofrimento. A minha dor. Ele quer me destruir; nunca é suficiente. Como o oxigênio chega à placenta pelo cordão umbilical, o meu vazio a desmanchar-se, o meu sangue fraco - incolor e inerte - chega até ele por cada um dos meus nervos.
As partículas se convertem em espinhos. Passam correndo, dilacerando. A aflição é tanta que eu sou obrigada a me contorcer. Para não sentir. Não ver o pedaço de mim indo embora transfigurado em facas, sem dó, com o riso ecoando dentro de mim.
Ele ri.

A sua sobremesa são as minhas lágrimas. Não há remédio que o combata.

Cada vez ele tem mais fome.

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