Sobre a mentira.
Às vezes esses fios parecem querer te trazer pra dentro de mim, pra esse espaço que eu guardo entre as costelas, para que de lá tu jamais possas ir a outro lugar. Conheço teus fios, e os vejo me envolvendo pelas costas, mas ainda não consigo sentir a todo minuto o cheiro de umidade característico do interior de átrios e ventrículos.
Eu estou exatamente como você me deixou.
Debruçada por sobre as minhas memórias, na tentativa de minhas lágrimas assumirem o poder de deteriorá-las. Corroê-las. Tentando disseminar a dor, para que ela não se estagne assim como o sangue quente das minhas feridas. Quem sabe se doer em cada ponto de mim, não seja mais capaz de me sufocar. Quem sabe se eu sentir o tremor em cada ponto de mim, não seja capaz de fraquejar. Possa manter a estabilidade.
Ainda posso sentir as suas garras. Agora não mais a tocar minhas feridas semi-curadas, mas entre as costelas que protegem os meus pulmões lutando enlouquecidamente para aniquilá-las. E aí, ver se eu enfraqueço. Estou esbranquiçada por cima da umidade do meu travesseiro, e o que acho de mais vivo em mim é o meu coração vermelho fraco dando suas últimas pulsações antes de ir. Antes que você consiga mostrar-se onipotente sobre ele. Para fazer o que quiser.
Como se eu já não soubesse que coisa é essa.
Quase posso ver as suas garras dobrando de tamanho, a satisfação tornando sua expressão estranhamente assustadora ao penetrá-las e sentir o meu sangue escorrendo por entre os seus dedos.
Está prestes a conseguir, trazendo sempre consigo nessa rotina ininterrupta o sol que, ao meu psicológico, é um ataque quase letal.
Se antes eu adormecia torcendo pelos dias ensolarados, hoje eu posso rir nos dias de chuva. Além de carregar com ela minhas lágrimas, sem distinguir, leva com ela as lembranças nostálgicas das tardes que vivemos embaixo do Sol.
A vontade que sinto é de aparecer, bem agora, na sua frente e gritar que a culpa é toda sua. Que foi você quem trouxe essa tempestade fora de estação. Por trás das minhas vestes encharcadas de lágrimas, eu diria, descarregaria parte desse peso que é viver lutando cada segundo para a minha fraqueza não me deixar cair.
Não quero meus joelhos sangrando.
Minha pele cuspindo sangue. Como uma torneira sem ninguém para fechar.
Não quero te dar esse gosto. Mais sangue meu indo embora, não.
Não agora.
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