sexta-feira, 15 de agosto de 2008

A carta.

Foram oito longos dias. Numa quinta-feira do mês de Agosto, estava sendo colocada a carta, pronta a seguir o seu destino, no seu impecável envelope preto escrito, em caligrafia retinha, a uma caneta prateada. Era o meu nome endereçado.

Vi-me, durante todos esses dias, correndo em direção da janela que dá vista para fora, durante a tarde, nos horários que eu achei que o carteiro poderia chegar. Em todas elas via sempre a mesma coisa: a caixa vazia. Num primeiro momento uma decepção, logo depois uma irritação enchiam-me por dentro. Eu não via a hora de ter aquela carta em minhas mãos, eu mal podia esperar para devorá-la.

Foi então que hoje o barulho da buzina de uma moto me assustou. Dei um pulo, sorrindo algo que carregava esperança, mais para mim do que qualquer outra coisa, nos poucos passos do sofá até a janela. Era ele. O carteiro, até que enfim, tinha chegado. Corri para chamar o meu irmão, pedindo que ele fosse buscar. Antes mesmo que ele entrasse pela porta, eu estendi as mãos pela janela e pedi que ele me entregasse. Segurei aquele envelope recheado nas mãos e corri para o meu quarto. Ajeitei-me em minha cama. As pernas cruzadas, estilo perna de índio.

De imediato, vi que tinha sido muito bem colado, e mesmo com o aviso (que inteligentemente, só pude ver depois de aberto) não pude deixar de dar uma pequena rasgadinha. Mas foi pouco. Tive o auxílio de uma régua para isso. Tratei de tirar todos aqueles pedaços pequenos de papéis, três maiores e alguns pequenos soltos. Os origamis. Oriundos de medidos e leves toques.

Descrever uma sensação como essa não é tarefa fácil. E de longe é uma das melhores que posso sentir. Uma que abre um largo sorriso e sente o gosto de uma ou duas lágrimas alcançando o espaço que acaba de se esticar. Em meio à euforia, não sabia nem por onde começar. Acabei decidindo pelos menores. Na maior delas, o meu olho mal conseguia captar palavra por palavra. Eles corriam, passeavam, dançavam por todas aquelas palavras que pareciam estar sendo sussurradas, logo ali contra meus ouvidos. Eu precisei reler. Mais uma vez, e outra, e outra.

Eu não tenho palavras. Todas elas ficaram dispersas em variadas moléculas do ar que agora fugiam do meu alcance.

Com a cabeça recostada na almofada, abria o pequeno pedaço de papel que atendia ao meu pedido, tinha o cheiro. Inspirava aquele aroma que invadia minhas narinas, e em segundos, estava pelo quarto todo. Pude sentir mais claramente quando saí e entrei de volta. O cheiro dela rodeava cada canto daquele cômodo. Isso tudo me acertara de tal forma, me atingira como um jato de um raio de sol após semanas chuvosas e nubladas, que eu quase pude ver sua figura, aquela que eu podia sentir, tocar... Exalando aquele perfume, sibilando aquelas palavras por entre lábios cerrados. Baixinhos, calmos e serenos. Daquele mesmo jeito que encheram tantas vezes os meus ouvidos no telefone.

Deixando suspensas no ar as partículas de emoção que caíram enquanto uma face de sua mão roçava aquele pedaço de papel.

Por falar em telefone, a minha vontade antes mesmo de abrir aquele envelope, era de discar o número de seu telefone, deixar uma daquelas frenéticas recepções escaparem, em meio a ofegos e sorrisos que quase falavam mais alto do que minha própria voz.

O coração, delicadamente pintado, trazia duas metades, e cada uma contendo um de nossos nomes. Foi imediatamente parar em cima de onde meus olhos se grudam e minha mente viaja por onde eu ainda não passei, por sob os quais eu não mantenho controle. Em um mural com fotos minhas, agora com um toque singelo. Um toque seu.

Você só tem adocicado tudo o que parecia amargo a meu ver, a nossa estrela parece brilhar mais do que nunca. Ela absorve nossos pensamentos e as faíscas reluzentes do nosso olhar pousam todos lá. Ela parece saber que, agora, não há mais verdade alguma oculta. Juntas, iremos alcançá-la. Os nossos sonhos são tudo o que não têm o direito de arrancar. Você me invade de um jeito incomum. Traspassa. E assim, consegue, melhor do que muita gente, tornar claro o que o que os meus olhos não enxergam. Eu absolutamente adoro isso.

Logo, logo, eu vou recostar a cabeça no seu peito e ficar a medir a freqüência da sua respiração. Irei voltar para cá capaz de definir e descrever cada traço seu.

Um comentário:

Lou P. disse...

Juro que nunca me senti tão lisonjeada na vida. Nunca, nunca mesmo, como agora. Espero ansiosamente pelo momento em que vamos ver nossa estrela, juntas, e sorrir, o brilho dos nossos olhos competindo com o brilho dela, tá bem, pequena?