quinta-feira, 14 de agosto de 2008

Metamorfose ambulante

Eu já fui várias. Já existiram várias de mim. Quer dizer, não tantas capazes de preencher um vasto espaço, mas existiram. Mudar de estilo, as roupas que usa, as bandas que ouve e o ângulo da tesoura no cabelo não são nada que foge do normal. Afinal de contas, todos crescem e renovam seus gostos.

Sinto como se um ser pensante interno vagasse, entrasse e, depois de algum tempo, saísse. Por um mesmo corpo. Ainda que a transformação seja tamanha e o resultado quase irreconhecível, não vamos nos iludir. É a mesma. Sempre foi.

Muita gente (e eu me incluo nesse grupo) sente interminável vergonha de si próprio olhando algumas fotos velhas, dos anos que se passaram. Por vezes é realmente vergonhoso e até entristecedor. Porém, nem tudo é tão ruim como parece. Basta você trocar os olhos supérfluos por uns mais aguçados.

Você aprendeu algo com isso, isso é certo.

Não me arrependo do que já fui um dia. Nem com o que ouvi ou deixei de ouvir vindo de outros.
Foi então que, em algum momento do tempo, incerto e talvez até inesperado, esse ser interior sujeito a trocas e mudanças saiu, dando lugar a um novo, a um que lhe soasse mais familiar. Mudança faz parte da jornada da vida, e nesse aspecto, muito mais aparente na vida de um adolescente em fase de desenvolvimento. De criação, de formação. Tanto de opiniões quando de personalidade. Entrando em uma desenfreada busca por aquilo que mais se aproxima de você, aquele mundo que mais te entende e te acolhe. Arrependeria-me se tomasse sabedoria de um só universo, um só conjunto de gostos, uma só “tribo”. Apesar de detestar esse termo.

Contudo, basicamente, o meu eu interno sempre foi o mesmo. Quero dizer, não desde sempre, mas ao menos desde que sou imbuída o suficiente de esperteza. E era por ter isso em mente que entrava num vazio inconsciente diversas vezes pelo fato de ser menosprezada por passar o lápis preto no olho de um jeito diferente. Por que aquilo era menos humano? A minha pessoa que todos conheciam ainda vagava aqui, sentimentalmente constando. O que mudara era somente o meu modo de ver o mundo. Todos me pareciam insignificantes, e aquele estilo, mais tentador.

Posso ainda mudar, posso libertar vários seres secretos e ocultos. Mas eu, particularmente, me gosto muito atualmente. Talvez dissesse isso há uns meses atrás, quando nem sonhava com uma mudança assim. Só que isso não importa. Ser aceito pela maioria comum da sociedade não faz de você alguém melhor. Só é mais alguém. Ofuscado em meio a tantos. Então, se me der na telha adotar viver com uma melancia na cabeça, eu o farei. Escutando baforadas de insultos, mas quem são eles? Quem são todos eles?


Eu prefiro ser essa metamorfose ambulante do que ter aquela velha opinião formada sobre tudo.

Um comentário:

Lou P. disse...

Sabe, olhar pra trás, pro nosso passado, é sempre uma experiência interessante. Sempre achamos algo novo no que é velho. No que já passou. E sabe, te conhecendo desde quando conheço, eu fico muito feliz em ser parte da velha, da transitória, e da Gi atual. Tive minha participação, sabe? E você também teve, em mim. E acho que sempre vai ter, num ciclo vicioso, vou lembrar de você e querer ser alguém sempre melhor.