segunda-feira, 11 de agosto de 2008

Nostalgia.

Não são poucos os fatores que me fazem sentir. E nem sei se consigo converter em palavras alguns deles. A nostalgia é um sentimento que advém de outro, é a melancolia provocada pela saudade, diz o dicionário. E por não ser algo concreto, é difícil de descrever. Muitas vezes o que você consegue tirar disso, desse momento cabisbaixo, publica em suas próprias mágoas e rejeita qualquer possível entendimento de outrem, por ser algo que toca seu íntimo. E é só seu. Como o que vale muito quando você não tem nada, mas ainda assim se recusa. Por todo e qualquer dinheiro.

Não é algo que afeta exteriormente. Talvez justamente por não ter chances de balancear, acaba se tornando mais doloroso ainda. Tudo despenca mesmo ali, única e exclusivamente no interno do seu ser. Não é, também, algo que podemos sentir em contato com a nossa pele. Quero dizer, não podemos pegá-lo, nem segurá-lo contra nosso peito. Não tem forma, não tem cor, nem textura. Mas é o que podemos sentir nas nossas lágrimas reprimidas e em saudades afogadas. Mais vale o que tem por dentro, não é o que dizem?!

Tudo sobrevive de algo. O que nutre a nossa nostalgia é a nossa própria mente. Nossas próprias memórias. Mais uma vez estamos passando totalmente longe do concreto, e isso torna o ambiente muito mais sutil. Vê? Podemos controlar. Ou não. Por vezes não tivemos a oportunidade de escolha daquela forma que viremos a sentir falta depois. Mas depende de nós, e só de nós mesmos, o rumo que deixaremos nossos vazios vagarem. Delimitamos o espaço. Quanto mais longe explorar, mais quente sentiremos o que contornará os nossos traços depois.

O aperto inefável no peito nos remete a indagações que durariam incansáveis por horas a fio. “Foi bom?” “Valeu à pena?” “Cresci com isso?” “Doeu mais do que pude suportar?” “Onde estará?” “Por quê?” “Vai voltar?”
Papéis, fotografias e até mesmo sons estão inertes naquele momento e é tolice crer o contrário, mas e tente convencer disso quem fala mais alto do que a razão!

Não que o agora seja ruim. Ele é encantador. Mas reviver em memórias quase obscurecidas de tudo o que já se foi provoca um deslumbre inevitável. Trazendo consigo raiva, riso, choro ou amargura, seu lado proveitoso está ali. Ainda que ofuscado.

A nostalgia é o sentimento das nossas memórias, é a saudade de algo que se foi, que não veio ou que virá. O tempo pouco modifica. O inalcançável, o inabalável, o inexplicável, o indescritível, o intocável.

Plantamos um dia, pelas mais variadas e incertas razões, e quando é que iremos colhê-la não temos como saber. Mas uma coisa é certa: o que colheremos, então, serão as lágrimas cristalizadas. O resquício de um sorriso, no cantinho curvado para cima. O orgulho de ter vencido.


Eis aqui alguns dos fatores que sou capaz de lhes contar...
Fotografias já maltratadas pelo tempo; o crepúsculo; músicas altas no fundo de uma paisagem que passa ligeira pelo vidro em que fito; as gotas da chuva quebrando no telhado; a calada do anoitecer; estiradas na cama sem propósito; insônia; pouca luz ou uma luz ofuscada; músicas lentas; filmes; livros. As três finais um pouco amplas, mas é.

Um comentário:

Lou P. disse...

Não vou dizer que é um texto lindo, vou dizer que é muito real, muito explícito e claro. Compreensivo, você colocou em palavras o que um sentimento pode fazer com a gente, e descreveu com fidelidade. Descrever um sentimento é mais que difícil, complicado, complexo. É ousado. Porque cada um sente de um jeito, entende de um jeito, vê de um jeito. Mas, eu posso dizer com muita sinceridade que a minha nostalgia, pequena, compara-se à sua. E com sintonia. Falta pouco.